quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O dia em que Portugal morreu (4)

O que despoletou, em termos formais, a manifestação e o desapontamento geral com o governo foi o anúncio da alteração na TSU, em que uma subida desta contribuição social por parte dos trabalhadores seria compensada por uma descida da parte das empresas. Povo e comentadores reagiram como se estivessem a ver claramente todas as hipóteses em cima da mesa e os efeitos a curto e longo prazo. Começo por supor que assim é.

Se a mexida da TSU é inviável, então é porque há uma alternativa totalmente distinta. Mas essa alternativa só pode situar-se fora do quadro definido pelo actual resgate financeiro – que não dá qualquer margem para alterações de fundo e não é com cortes nas “gorduras” do Estado que a situação se irá alterar significativamente. Se defendemos a manutenção da situação actual, então estamos a querer dizer que algum tipo de subida de impostos é inevitável, provavelmente ainda mais gravosa que a alteração na TSU, como de resto veio a acontecer com a anunciada alteração dos níveis do IRS e “aumento enorme de impostos” (com a ressalva de que isto ainda deveria ocorrer caso as alterações à TSU tivessem avançado). O PS diz que esta troca é um logro político, pelo que deve ter toda a razão, uma vez que se trata de um partido especialista em tais manobras.

Ao menos neste aspecto, devemos saudar os organizadores da manifestação, já que pediram explicitamente que a troika se retirasse do país. Claro que eles não exigem isto tendo em vista a implementação de um plano estruturado de reconstrução do país. Eles querem o fim do resgate financeiro para que se instale a bancarrota e a situação se torne anárquica, dando-lhes uma abertura para a tomada do poder e iniciar, assim, um período revolucionário que possa fazer de Portugal uma nova Cuba, uma Albânia ou até mesmo, se não é sonhar muito, uma Coreia do Norte. E tivemos gente de “direita”, liberais e conservadores a participar na manifestação sem perceberem o que estava em causa. Parecem acreditar que “ o inimigo do meu inimigo meu amigo é”, quando São Tomás de Aquino (e antes dele, Aristóteles) assinalou que a amizade não é apenas rejeitar as mesmas coisas mas também querer as mesmas coisas.

Aqueles que se querem assumir como formadores de opinião tinham a obrigação de avaliar a alteração à TSU num quadro amplo, começando por descrever a verdadeira situação do país e quais as medidas que podem realmente trazer mudanças de fundo. Mas preferiram reagir na base do imediatismo, dizendo aquilo que lhes sossega o espírito e possa ecoar nos públicos que têm como referência. Alegram-se por fazer oposição a uma má medida sem perceberem que em troca vão ter apenas uma medida igual ou pior.

Era também uma oportunidade para discutir a própria existência da TSU e da segurança social nos actuais moldes, o que vi apenas ser feito de maneira tímida por muito poucos. A segurança social, devido à fraca capitalização e ao favorecimento dos que já estão “instalados” (e alguns estão bem mais “instalados” do que outros), é uma fraude financeira do género do ponzi scheme. Este é um tipo de investimento fraudulento bem conhecido, com semelhanças ao esquema de pirâmide, mas com maior robustez enquanto continuarem a entrar novos investidores. No caso da segurança social, os novos investidores são os actuais contribuintes e os futuros. Contudo, o esquema de funcionamento da actual segurança social é ainda mais tenebroso do que o ponzi scheme. Todos somos obrigados a contribuir para a segurança social mas a entrada no ponzi scheme é opcional (mas apesar disso este esquema é punido criminalmente e muito justificadamente). Pior ainda, sendo um esquema que depende da entrada de novos contribuintes, a segurança social entra em choque contra uma série de políticas activas de destruição da natalidade: abortismo, casamento gay, e todo o género de “pequenas” dificuldades criadas para quem quer ter filhos e que leva a muitos casais a adiar ou abdicar da paternidade. As massas vão aceitando tudo isto porque lhes dizem que é a inevitabilidade do progresso, que são as conquistas da liberdade, quando nunca as pessoas foram tão prisioneiras da situação e o único progresso que se assiste é o da conduta simiesca.

Não é por acaso que se aconselhava a praticar a caridade de forma discreta e, de preferência, até anonimamente. Quando os políticos falam em solidariedade feita à custa de dinheiro alheio devemos desconfiar das suas verdadeiras intenções. Hitler usou esta “solidariedade” para comprar os votos do povo, e é raro o político que não ceda a esta tentação. Nos Estados Unidos, o New Deal foi a porta de entrada para o Estado social, cujo verdadeiro objectivo foi o enfraquecimento da alma dos indivíduos, tornando-os apáticos e medrosos, por forma a aumentar o poder daqueles que mandam no Estado sobre as populações. Esta concentração de poder foi adoptada no mundo inteiro, por vezes mais ferozmente em países ditos capitalistas do que nos socialistas. Actualmente estamos numa fase bem mais avançada, dado que a segurança social não se limita a comprar os votos povo e a enfraquecer a vontade dos indivíduos. Ela tornou-se agora numa estratégia de longo prazo tendo em vista a destruição das nações, que ficam obrigadas a prover a uma série de “direitos adquiridos” até se atingir um ponto de ruptura. A este respeito, ver, por exemplo, a estratégia Cloward-Piven:


A discussão pública fragmentou-se numa miríade de questões subatómicas, cada uma delas totalmente irrelevante e baseada em abstracções que nada dizem. Mas quem se viciou neste tipo de questiúnculas, pensa ter encontrado nestes infinitésimos o solo duro da realidade. Qualquer tentativa mais ampla de avaliar as situações parece-lhes teoria da conspiração, ainda que lhes mostrem as evidências que estão diante dos seus olhos. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O dia em que Portugal morreu (3)

O que uniu aquelas pessoas que se manifestaram no dia 15 de Setembro? Formalmente tratou-se de uma manifestação contra o governo e contra a troika. Mas ninguém acredita que todas aquelas pessoas queriam prescindir do resgate que o país vive e iniciar um caminho totalmente diferente, se bem que isso tivesse algumas vantagens. As pessoas estavam obviamente unidas por um sentimento de insatisfação, mas se perscrutarmos as causas dessa insatisfação descobrimos algumas coisas curiosas. Enquanto muitos protestavam contra a anunciada redução efectiva de salários no sector privado, via ajustamento da TSU, outros queixavam-se da degradação da situação dos funcionários públicos. Obviamente que as duas pretensões implícitas são contraditórias no quadro actual. Uma jovem de ar confuso reclamava que era cada vez mais difícil arranjar estágios profissionais porque estavam sempre a sair novos alunos das universidades a fazer-lhe concorrência, mostrando pouca solidariedade para com muitos dos seus colegas de protesto que anseiam por uma primeira oportunidade profissional. Se pensarmos em termos de pretensões mais conceptuais, havia quem queria claramente mais socialismo e quem queria menos Estado, assim como quem queria mais solidariedade europeia e aqueles que queriam desligar-se da Europa e do Euro.

Isto quer dizer que, se aquelas pessoas estivessem devidamente organizadas pelas suas pretensões, assumindo um discurso em conformidade e fazendo as exigências em consonância – ou seja, exigindo que outros assumam uma série de deveres correspondentes aos direitos que elas reivindicam –, então, não haveria ali qualquer união mas uma série facções degladiando-se. Na realidade, é exactamente isso que acontece mas cada indivíduo não tem disso uma consciência clara (porque a paga entre direitos e deveres não é directa), apenas uma desconfiança difusa em relação a todos, que se materializa em certas circunstâncias contra um bode expiatório. Em geral, são os próprios governantes que usam esta estratégia para concentração de poder, através da variante “dividir para reinar”. Ou seja, é mais fácil reinar quando o grupo está dividido em várias facções, cada uma delas com pouca consciência do estado geral de coisas, pelo que acabam por ceder ao poder mais focado e consciente de si mesmo e da situação geral.

Mas quando os governos são pouco hábeis politicamente, a mesma estratégia pode ser usada por forças com pouca expressão eleitoral, que desta forma tentam representar uma pretensa consciência unitária do grupo. Para isso, é necessário domínio das modernas técnicas de propaganda e apoio da comunicação social, dois requisitos cumpridos pela extrema-esquerda, em especial pelo BE. Uma carrinha de caixa aberta distribuía aleatoriamente cartazes aos manifestantes, que os aceitavam acefalamente, recebendo assim uma consciência emprestada. O cenário orweliano está montado e quem entrou nele sem pestanejar pode ter sofrido danos irreversíveis para a sua inteligência.

Passaram uns dias e o governo recuou na alteração à TSU, para aumentar o IRS, e o resultado global para a economia pode ainda ser pior. Mas todos reclamaram vitória e fingem que se está a debater algo de relevante. O cidadão comum saltou do tacho para a frigideira, deverá estar um pouco confuso. Valerá a pena entrar em nova manifestação e correr o risco de ser colocado no micro-ondas?

domingo, 30 de setembro de 2012

O dia em que Portugal morreu (2)

O que supostamente despoletou a manifestação de 15 de Setembro foi a redistribuição da TSU (que será abordada noutra ocasião), diminuindo a contribuição das empresas e aumentando a dos trabalhadores. Na linguagem do Partido Comunista, isto seria roubar aos trabalhadores para enriquecer o grande capital. Curiosamente, os "grandes" capitalistas e os "representantes" do patronato concordaram com isto e recusaram logo esta redução dos custos do trabalho, que tão insistentemente tinham vindo a pedir. Mais significativo ainda foi não terem apresentado, de forma coerente, qualquer proposta alternativa, como se o ideal para as empresas fosse manter tudo como está. Os "representantes" do patronato, com a sua reacção imediata, não tiveram tempo para averiguar entre os seus representados se a medida podia ajudar alguma coisa, nomeadamente entre aquelas empresas que estão no limite entre fechar ou continuar em actividade, pelo que convinha saber quem eles representam realmente. Note-se que em nada disto suponho a justiça ou eficiência da medida anunciada pelo governo, mas precisamente assinalo que ninguém se interessa em saber o que está em causa.

Afinal, que tipo de empresários temos nós? As exportações portuguesas tiveram um aumento notável nos últimos anos. Os mercados externos não se abriram de repente, sempre estiveram disponíveis, mas antes qualquer empresário preferia colar-se ao Estado, de forma mais ou menos directa, mas a teta estatal ameaçou secar abruptamente. Então, aqueles empresários mais capazes e perspicazes fizeram o que tinham a fazer, mas os outros entraram em pânico. António Borges chamou-os de ignorantes, mas eles não são nem sábios nem ignorantes, são apenas uns espertos que viveram à conta de um socialismo que agora se mostra inviável. Toda e qualquer contestação ao governo da parte do "grande capital" é apenas mero pretexto para forçar o governo – este ou outro que lhe suceda – a se tornar mais dócil e a conceder benesses de forma encoberta, os famosos "estímulos à economia". Mas os empresários beneficiados serão sempre aqueles com maior poder de influência, pelo que todos os outros estão a ser burlados por aqueles que supostamente os representam.

A isto há que juntar as pressões dos detentores de fundações, que não se contentam com as isenções de impostos e reclamam sempre mais e mais subsídios para elaborar tarefas tantas vezes de duvidosa utilidade, vide Mário Soares alarmado com os cortes que se anunciavam.Sem esquecer ainda que a anunciada privatização da RTP criou mais uma série de inimigos na poderosa industria mediática devido à escassez do mercado publicitário.

Longe ainda deste quadro completar a fenomenologia do poder em Portugal, percebe-se facilmente que as classes poderosas não se interessam minimamente pelos destinos do país mas anseiam por um governo ao estilo de José Sócrates, que continue a empurrar com a barriga uma situação insustentável, enquanto concebe benesses por baixo da mesa a estes mesmos poderosos. Quem paga, como sempre, é uma classe média, que hoje já vive como se fosse uma classe pobre. Sobre estes dedicarei o próximo post.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O dia em que Portugal morreu (1)

Tal como as árvores, os países podem morrer sem que alguém dê por isso durante muitos anos. Para efeitos de raciocínio, entendo aqui a morte de um país ou de uma nação ­– as precisões ficam para mais tarde – como aquele ponto de não retorno em que não é possível mais indireitar o estado de coisas sem que haja uma refundação nacional, talvez só possível em diáspora. Obviamente que não se trata aqui de fazer algum tipo de previsão científica mas de deambular por um campo simbólico que nos permita vislumbrar as razões mais profundas, sem entrar por uma busca de causas remotas, que nos levaram até aqui.

Portugal morreu no dia 15 de Setembro de 2012, data da manifestação contra a troika e contra o governo, devido ao corte de ordenados que a subida da TSU implicava. Como todas as manifestações, foi organizada pela extrema-esquerda e apoiada de forma natural por toda a comunicação social. A convocação pelo facebook precipitou uma adesão maciça, e todo o país se mobilizou, ricos e pobres, incultos e sábios, socialistas e liberais. A unanimidade contra as últimas medidas do governo, assim como contra o resgate da troika, seria uma coisa positiva se acreditássemos na remota hipótese de todos terem percebido o que se passa: ou seja, todos perceberam os erros cometidos; todos compreenderam a gravidade da situação e o longo caminho que nos espera; todos sabem quais os caminhos de saída e as formas de os trilhar, incluindo a maneira de superar os obstáculos e os imprevistos.

Mas se nos recusarmos a crer nesta espécie de omnisciência colectiva, somos forçados a encarar esta unanimidade de forma mais sombria, e a desconfiar se não estamos em presença de um tipo de estupidez colectiva de consequências irreversíveis. Não me refiro propriamente à estupidez dos manifestantes, muitos deles reagindo de forma compreensível a mais uma espoliação, mas à estupidez da generalidade dos comentadores, que tanto mais falaram quanto menos raciocinaram. Passados alguns dias, disse para mim mesmo que esta tinha sido a mais socialistas das manifestações que alguma vez existiram em Portugal. Mas nem tudo estaria perdido se assim fosse, dado que seguir de forma consciente um caminho, ainda que errado, permitiria mais tarde corrigir a trajectória, precisamente pelos escrúpulos que à consciência se ligam. Mas depois percebi que era muito mais grave, que as pessoas tanto querem – seguindo a desorientação reinante nas classes pensantes – um Estado omnipresente como um Estado mínimo, querem ser totalmente livres desde que severamente agrilhoados, querem voltar para uma Idade do Ouro ao mesmo tempo que abominam tais fantasias, querem o fim da crise assim como a sua eternização... A lista podia prosseguir indefinidamente. Não se tratam de desejos contraditórios, tão característicos do ser humano. Trata-se de uma marcha deliberada para o abismo, surgida da coragem emprestada pelo colectivo.

Mais tarde tratarei de concretizar estas imagens, que por ora parecerão apenas toscas pinceladas poéticas a retratar um certo espanto.