Coloquei ao
lado uma lista de blogs. O número é reduzido porque o objectivo não é distribuir
“palmadinhas nas costas” esperando receber algumas de volta mas apenas indicar
aqueles blogs que são minhas leituras habituais e de ondo posso aprender alguma
coisa. Desnecessário será dizer que não sou obrigado a concordar com tudo o que
seja publicado nestes blogs. Aqueles cuja principal actividade mental é
concordar ou discordar de outros não passam de imaturos que procuram algum
conforto grupal, incapazes de são de suportar a solidão de uma vida
intelectual.
Este blog não se destina a ser lido por fracos de espírito ou por imbecis de carreira. A sua leitura pode provocar um profundo mal-estar.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Portugal, a Alemanha e a Crise
Em férias pela região do Douro, perguntava-me um turista canadiano se, afinal, os portugueses manifestavam-se porque achavam que não tinham de pagar o dinheiro que tinham pedido emprestado. Disse que isso era verdade para certas pessoas mas não para outras. Não me era possível, numa conversa de circunstância, explicar toda a situação, como tentarei fazer aqui. Outra pergunta que se pode colar a esta é a seguinte: o que querem os portugueses da Alemanha? Será que nós, portugueses, deixamos de ser um povo honrado e passamos a ser um bando de adolescentes mimados, achando que temos o direito a tudo o que quisermos sem termos de prestar qualquer satisfação a quem quer que seja? Quem assiste aos noticiários pensará que é efectivamente essa a situação, porque diariamente surgem peças jornalísticas mostrando grupos reivindicando algum tipo de benefício para si sem mostrar qualquer preocupação por aqueles que seriam obrigados a pagar a despesa concomitante. São também constantes as notícias de greves gerais ou de algum sector específico, que são um conhecido estratagema revolucionário de destruição da economia. Mas sabemos num estudo recente que 80% dos portugueses nunca fez greve e no dia-a-dia percebemos que as pessoas vão aprendendo a viver com menos posses sem estarem sempre a queixar-se por isso, sem que isto signifique algum tipo de aprovação do desempenho da classe política. Então, se queremos perceber o que se passa, temos que ir para além das cortinas de fumo lançadas pelos jornalistas e optar por métodos mais básicos, tais como olhar em voltar e descrever o que vemos, relacionando isso com algumas informações elementares e facilmente comprováveis por qualquer um.
Quando avaliamos a posição da esquerda radical, dos sindicalistas e de muitos comentadores “moderados” deparamos com uma avaliação simplista, que diz que Portugal não fez nada de errado nos últimos anos – ou então foi obrigado a cometer erros por entidades externas – e, sendo assim, a crise nacional tem que ser resolvida com a solidariedade europeia. Então, acham estas pessoas, para tudo se resolver basta que a chanceler Merkel dê ordem de recolhimento à “austeridade” e a substitua por um pacote de estímulos. Pode parecer que estou a fazer uma descrição simplista, mas não tenho dúvidas que concepção que muitos opinadores têm sobre como funcionam estas coisas, quando despida da argumentação vazia usada apenas como arma psicológica, é até mais básica que isto. Veja-se, por exemplo:
Quando avaliamos a posição da esquerda radical, dos sindicalistas e de muitos comentadores “moderados” deparamos com uma avaliação simplista, que diz que Portugal não fez nada de errado nos últimos anos – ou então foi obrigado a cometer erros por entidades externas – e, sendo assim, a crise nacional tem que ser resolvida com a solidariedade europeia. Então, acham estas pessoas, para tudo se resolver basta que a chanceler Merkel dê ordem de recolhimento à “austeridade” e a substitua por um pacote de estímulos. Pode parecer que estou a fazer uma descrição simplista, mas não tenho dúvidas que concepção que muitos opinadores têm sobre como funcionam estas coisas, quando despida da argumentação vazia usada apenas como arma psicológica, é até mais básica que isto. Veja-se, por exemplo:
Trata-se de
uma carta aberta à chanceler Merkel, escrita por gente de esquerda activista
mas não propriamente radical. Bruno Bettelhein, caso fosse vivo, teria aqui
material para uma nova edição da Psicanálise
dos Contos de Fadas, uma vez que não saímos do território da fantasia pueril.
Quando questionada sobre os protestos dos portugueses, Merkel teve resposta
fácil: o acordo de governação que está em vigor em Portugal não tem nada ver
com ela, foi assinado pelo governo português e pela troika. Ou seja, acusar a
Alemanha de forma simplista tem o risco desta ilibar-se também
simplisticamente.
Para
assacarmos as verdadeiras responsabilidades, necessitamos de um quadro mais
alargado, com uma escolha apropriada de eventos. Nos últimos 40 anos Portugal
tem sido governado por partidos sociais-democratas, cujas diferenças se esbatem
quando têm funções de governo. Todos acreditam no dirigismo económico e nas
virtudes dos défices acumulados como estímulo ao crescimento. Contudo, os
próprios ideólogos socialistas da construção europeia perceberam que a
unificação política podia estar em risco se o socialismo económico fosse longe
demais, e em 1992 o Tratado de Maastricht definiu para os países signatários um
limite da dívida pública de 60% do PIB. Curiosamente, este foi o tratado que
instituiu a União Europeia – um projecto declaradamente político – e abandonou o
projecto menos ambicioso da Comunidade Económica Europeia. Um dos elementos
fundamentais na união política era precisamente a união monetária, pelo que se
tornava importante, numa fase inicial, ter uma moeda estável, e daí as regras
para disciplinar as contas dos vários países.
Entre 1985
e 2004 a dívida portuguesa oscilou, aproximadamente, entre 50 a 60% do PIB, o
que constituiu um desempenho medíocre, mas muitos condenavam, ainda assim, a “ditadura
do défice”. A partir de 2004 a dívida portuguesa ultrapassou o limite dos 60%
do PIB, e daí em diante cresceu vertiginosamente, atingindo 71,6% em 2008, quando
rebentou a crise financeira internacional, chegando praticamente a 120% do PIB
em 2012. Esta constatação elementar serve para mostrar que o endividamento do
governo de José Sócrates começou bem antes da crise financeira, ao contrário do
que alguns ainda tentam argumentar. A crise financeira internacional serviu
apenas para agudizar um fenómeno que já era notório. Além disso, sabemos que se
tratou de um endividamento em despesas largamente irrelevantes, como em
dispendiosas auto-estradas em zonas onde não passa ninguém, quando não em
negociatas ruinosas feitas à medida de alguns amigos. Os culpados disto são
fáceis de identificar e mais tarde direi o que deveria ter sido feito com eles.
Contudo,
tudo fica mais interessante quando sabemos que Portugal não era caso único, até
porque a Grécia se nos adiantou, e todos sabiam que os países do sul da Europa
não estavam de boa saúde financeira. Os organismos europeus deixaram passar
impunemente os países, como Portugal e a Grécia, que ultrapassaram o limite da
dívida, e alguns dirigentes chegaram a confessar que todos sabiam que vários
países apresentavam contas falsas, pelo que a situação real ainda seria pior do
que o anunciado. Como se não bastasse, as próprias agências internacionais de rating fingiram que nada se passava e
continuaram a dar classificações elevadas às dívidas dos países, até o colapso
ser iminente. Os idiotas de serviço olham para tudo isto e exclam que se
tratava de uma crise fabricada, no que acertam, mas acham que foi fabricada apenas
no final de 2008, com a falência dos bancos americanos, e depois com a descida “injusta”
dos ratings das dívidas de vários países.
Mas é óbvio que a crise foi cozinhada durante muito tempo, num misto de expansão
do estado social juntamente com políticas ruinosas de recurso ao crédito, cuja
entrada do euro em circulação tornou fácil aos países do sul da Europa, para
além do problema estrutural internacional do abandono do padrão-ouro.
Chegamos
agora à fase de lançar algumas conjecturas. Todos sabem que uma dívida quando
atinge um certo valor não é só ela se torna impossível de pagar, os próprios
juros associados já são por si incomportáveis. Este foi, de resto, um
estratagema muito usado para criar situações de escravatura depois desta ter
sido oficialmente abolida. Esta situação insustentável estava claramente a
ocorrer com Portugal e noutros países. É crível que ninguém tenha percebido que
se estava a cozinhar uma crise europeia, para mais quando anos antes se tinha estabelecido
a importância de limitar a dívida dos vários países? Isto seria supor que os
detentores do poder ao nível europeu sabem menos que o cidadão comum, que não
ignora que as dívidas são perigosas, quando é notório que, pelo contrário, são
os poderosos que estão em posse de informações que nem sequer são concebíveis
para o homem do povo.
Se
recuarmos um pouco no tempo, vemos que em 2005 o projecto da Constituição
Europeia teve que ser abandonado devido aos referendos na França e na Holanda, e
sabemos que esta constituição constituiria um passo quase que definitivo para o
fim das nações e para o nascimento de um super-estado europeu fictício e de
carácter totalitário. Precisamente nessa altura começaram a ser trabalhadas
outras vias para chegar ao mesmo fim de forma mais discreta. Por um lado, começou
a ser preparado o Tratado de Lisboa, que aumentava a integração europeia (um
eufemismo para a perda de soberania por parte das nações) de uma forma
psicologicamente mais aceitável do que impingir uma constituição para toda a Europa.
Por outro lado, fecharam-se os olhos ao endividamento crescente dos países do
sul da Europa, sabendo que era apenas uma questão de tempo até estes começarem
a solicitar o resgate financeiro por parte do FMI, lançando assim uma sensação
de desnorte por toda a Europa (isto em sintonia com uma crise financeira internacional,
que servia também outros fins). Quando Portugal pediu o resgate ao FMI, vários
comentadores “isentos” falavam de algumas soluções naturais para a crise: criação
do cargo de ministro das finanças para toda a Europa; orçamentos nacionais
fiscalizados pelas cúpulas europeias e assim por diante. Ou seja, tentou forçar-se
o aprofundamento da união política apostando no desespero das pessoas.
Mas nem
tudo correu como estava previsto, e ao invés dos povos se virarem para a Europa,
viram-se para si mesmos, e as gentes do norte começaram a acusar as do sul e
vice-versa, pelo que ao invés do reforço da união temos o risco de implosão da
União Europeia. Contudo, o próprio espectro do fim da Europa há muito que é um
argumento recorrente para o avanço do projecto europeu, nem que seja para
dizer, como tantas vezes ouvi, que ou avançamos para uma Europa mais unida ou
vamos entrar todos em guerra outra vez. Por isso suspeito que os socialistas
fabianos que tentam construir de forma tecnocrática e sem dor uma Europa
uniforme, mais uma vez estarão a tentar aproveitar-se dos socialistas radicais
que promovem greves e manifestações violentas, porque tudo isso é um argumento
para aceitar a mão ordenadora da “Europa”, ainda que tudo me pareça uma
pretensão ingénua, já que é um caminho que apenas pode favorecer, no longo
prazo, os projectos do califado universal e do movimento eurasiano de russos e
chineses.
Nisto tudo onde entram os alemães? Em primeiro lugar, se alguém sabe dos perigos do desgoverno financeiro são eles, mas tudo lhes pareceu bem enquanto os países de sul endividaram-se para comprar os produtos da indústria alemã. É muito instrutivo andar pelas estradas de Portugal e ver a quantidade de carros de luxo alemães. Por outro lado, a crise europeia serviu para aumentar o poder político da Alemanha, porque no momento do aperto todos se viram para quem manda mais, e esse, por essa razão, passa a mandar ainda mais. Penso que as elites alemãs estão a fazer um jogo perigoso, porque se alguns políticos e alguns empresários estão a ganhar muito com tudo isto (não necessariamente dinheiro, mas sobretudo poder de influência), o contribuinte alemão apenas perde e não está disposto a pagar as dívidas dos países do sul. Por isso, a Alemanha tão facilmente estará a mandar na Europa como poderá no momento seguinte se fragmentar, porque também tem as suas Catalunhas.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
A viabilidade de um país
Na
série anterior de posts, tomei como base um evento recente e,
analisando o comportamento dos vários actores em cena, tentei
evidenciar o clima de morte “eminente” que o país vive. Pode
parecer muito dramático, mas falar em fim de ciclo ou fim de regime
não me parece suficiente.
Agora
vou tomar um ponto de vista diferente e, por assim dizer, mais
estrutural. Nos últimos anos não deve ter havido um único
noticiário que não tenha referido a duvidosa viabilidade económica
e financeira de Portugal. A questão está, obviamente, mal colocada.
Economia e finanças não tornam um país viável, antes têm o poder
de o tornar inviável. Os elementos que estruturam uma nação estão
colocadas noutro plano, mas também por aqui não estamos bem
servidos. Elenco de seguida algumas das nossas verdadeiras carências
estruturais.
Em
Portugal não existe um único grande escritor vivo.
Isto quer dizer que não existe ninguém a transfigurar a realidade
em símbolos verbais eficientes, pelo que a sociedade deixa de ter
instrumentos para reflectir sobre si mesma. Em fraca compensação, a
linguagem é enxertada de todo o tipo de gírias adaptadas de
disciplinas técnicas ou de outras línguas, que usamos para
descrever a nossa realidade por analogia, sem perceber que podemos ir
parar bem longe do nosso verdadeiro contexto e estarmos assim a
entrar numa ilusão completa. Note-se que ainda há muita gente a
escrever em bom português, mas sem grande literatura, é apenas uma
questão de tempo para toda a gente estar a escrever mal.
Portugal
não tem um único grande intelectual.
Existem bons académicos, cujos trabalhos não devem ser desprezados,
mas nenhum deles dá mostras de possuir qualquer sabedoria fora das
suas áreas de especialidade. Isto quer dizer que não há ninguém
capacitado para reflectir sobre os grandes problemas, que não se
podem confinar a uma única área de estudo, . Paradigmático sobre
esta incapacidade foi a entrevista que José Gil deu à RTP. Para
dizer algo acertado, limita-se a repetir a argumentação de qualquer
taxista. Quando desafiado a dar uma ideia para Portugal, demite-se
dessa responsabilidade e diz que isso é função dos políticos.
Nada mais errado: os políticos são figuras essencialmente práticas,
que se especializam em relações humanas tendo em vista o acesso aos
postos de poder, pelo que não é o tipo de pessoa a que naturalmente
se pedem reflexões aprofundadas. Essas reflexões são da
responsabilidade dos filósofos em primeiro lugar, que não têm
sequer de as tornar produto acessível ao grande público, ficando
isso a cargo dos polemistas e dos intelectuais de segundo plano, que,
por sua vez, poderão alimentar jornalistas, ficcionistas, políticos,
etc.
Não
havendo grandes intelectuais, é natural que também não existam
grandes comunicadores a servir de veículo de transmissão entre as
grandes ideias e o público geral. Neste
momento, Portugal tem apenas um grande comunicador: o professor
Marcelo Rebelo de Sousa. Contudo, a sua oratória é tão perfeita
quanto a sua falta de sinceridade.
Todos os problemas são abordados por ele segundo uma bitola estética
ou mediante uma ética de conveniência. É o tipo de pessoa
habituada a estar rodeada por medíocres e por isso não percebe que
podem existir pessoas com um horizonte de consciência infinitamente
superior ao seu. Todos os outros comentadores são figuras vendidas a
interesses particulares ou ideológicos, ou figuras vendidas à sua
própria alienação e preguiça, como é o caso de Miguel Sousa
Tavares. A única excepção é Medina Carreira, cujo mérito é
fazer umas contas de merceeiro ao Estado do país e alertar que, a
continuar assim, a “mercearia” será obrigada a fechar.
Em
Portugal não há nenhuma figura espiritual de grande nível,
com a possível excepção do bispo do Porto, D. Manuel Clemente.
Povo e elites privados de verdadeira vida religiosa tendem a
absolutizar o imediato e a desconsiderar passado e futuro. No limite,
caem numa vida animalesca, puramente baseada em necessidades
fisiológicas, e aqueles cuja angústia de existir não se conforma
com isto são facilmente presas de ideologias totalitárias.
Não
existe qualquer criação cultural de primeiro plano em Portugal.
Simbólico deste aspecto é o caso do cinema, em que Manoel de
Oliveira foi o primeiro grande vulto nacional e agora, com 103 anos,
continua a ser o maior expoente. Boa parte da classe artística acha
que tem um direito divino a ser subsidiada. Certamente que há
produção cultural séria e competente, mas nada que vá deixar
marca para futuro.
Quando
nos chocamos com o tipo de música que o povo consome, ou com os
programas execráveis de televisão a que assiste, esquecemos que
estas coisas têm origem e/ou são promovidas por gente que não é
do povo mas está colocada próximo das elites e segue muitas das
ideias que estas discutem em círculos restritos. As discussões
públicas, que apenas seguem linhas simplistas – normalmente
segundo pares de opostos, como mercado versus planeamento estatal –
não permitem ir às razões profundas . No mundo moderno, há um
abismo entre a cultura superior e a maioria da população. As elites
têm uma cultura para consumo interno mas criam também uma cultura
para estupidificação das massas. O quadro é complexo e não é
possível descrevê-lo em poucas linhas.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
O dia em que Portugal morreu (5)
Uma palavra final sobre os actores políticos não executivos envolvidos no cenário que tenho vindo a comentar. Os partidos estiveram ao nível que nos habituaram, com a sua usual indigência criminosa. Aceitar comentar as suas acções pontuais, caso não seja precisamente para exemplificar a sua execrabilidade, é já a reconhecer-lhes uma dignidade que não possuem. Mas não devemos diabolizar muitos os partidos, uma vez que eles têm por trás instâncias mais poderosas e perigosas. Os jornalistas também continuaram eficazmente a focar-se nas margens da realidade, secundados pelos comentadores residentes e por vários especialistas convidados, que tentam dar um ar de seriedade a discussões que nunca seriam admissíveis num país que queira sobreviver mais 10 anos.
Mas o mais relevante foi o comportamento da blogosfera, que parece ainda ter pretensões de se assumir como o último reduto da dignidade intelectual e moral. Não só não anteciparam que o governo ia ser “obrigado” a lançar novos impostos sobre a classe média (era fácil antecipar isto com anos de antecedência), como reagiram a isto com um espanto infinito. Debateram hipóteses num clima de escolhas impossíveis sem perceber que só vendo as coisas num quadro infinitamente mais amplo é possível ultrapassar os problemas derivados de décadas, ou séculos, de gestão danosa.
Sobre a actuação do governo, mais tarde direi algumas coisas quando esboçar um programa ideal de governação, para que o enquadramento possa ser o adequado.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
O dia em que Portugal morreu (4)
O que
despoletou, em termos formais, a manifestação e o desapontamento geral com o
governo foi o anúncio da alteração na TSU, em que uma subida desta contribuição
social por parte dos trabalhadores seria compensada por uma descida da parte
das empresas. Povo e comentadores reagiram como se estivessem a ver claramente
todas as hipóteses em cima da mesa e os efeitos a curto e longo prazo. Começo
por supor que assim é.
Se a mexida
da TSU é inviável, então é porque há uma alternativa totalmente distinta. Mas essa
alternativa só pode situar-se fora do quadro definido pelo actual resgate
financeiro – que não dá qualquer margem para alterações de fundo e não é com
cortes nas “gorduras” do Estado que a situação se irá alterar
significativamente. Se defendemos a manutenção da situação actual, então
estamos a querer dizer que algum tipo de subida de impostos é inevitável, provavelmente
ainda mais gravosa que a alteração na TSU, como de resto veio a acontecer com a
anunciada alteração dos níveis do IRS e “aumento enorme de impostos” (com a
ressalva de que isto ainda deveria ocorrer caso as alterações à TSU tivessem
avançado). O PS diz que esta troca é um logro político, pelo que deve ter toda
a razão, uma vez que se trata de um partido especialista em tais manobras.
Ao menos
neste aspecto, devemos saudar os organizadores da manifestação, já que pediram
explicitamente que a troika se
retirasse do país. Claro que eles não exigem isto tendo em vista a
implementação de um plano estruturado de reconstrução do país. Eles querem o
fim do resgate financeiro para que se instale a bancarrota e a situação se
torne anárquica, dando-lhes uma abertura para a tomada do poder e iniciar,
assim, um período revolucionário que possa fazer de Portugal uma nova Cuba, uma
Albânia ou até mesmo, se não é sonhar muito, uma Coreia do Norte. E tivemos
gente de “direita”, liberais e conservadores a participar na manifestação sem perceberem
o que estava em causa. Parecem acreditar que “ o inimigo do meu inimigo meu
amigo é”, quando São Tomás de Aquino (e antes dele, Aristóteles) assinalou que
a amizade não é apenas rejeitar as mesmas coisas mas também querer as mesmas
coisas.
Aqueles que
se querem assumir como formadores de opinião tinham a obrigação de avaliar a
alteração à TSU num quadro amplo, começando por descrever a verdadeira situação
do país e quais as medidas que podem realmente trazer mudanças de fundo. Mas
preferiram reagir na base do imediatismo, dizendo aquilo que lhes sossega o
espírito e possa ecoar nos públicos que têm como referência. Alegram-se por
fazer oposição a uma má medida sem perceberem que em troca vão ter apenas uma
medida igual ou pior.
Era também
uma oportunidade para discutir a própria existência da TSU e da segurança
social nos actuais moldes, o que vi apenas ser feito de maneira tímida por
muito poucos. A segurança social, devido à fraca capitalização e ao favorecimento
dos que já estão “instalados” (e alguns estão bem mais “instalados” do que
outros), é uma fraude financeira do género do ponzi scheme. Este é um tipo de investimento fraudulento bem
conhecido, com semelhanças ao esquema de pirâmide, mas com maior robustez
enquanto continuarem a entrar novos investidores. No caso da segurança social,
os novos investidores são os actuais contribuintes e os futuros. Contudo, o
esquema de funcionamento da actual segurança social é ainda mais tenebroso do
que o ponzi scheme. Todos somos
obrigados a contribuir para a segurança social mas a entrada no ponzi scheme é opcional (mas apesar
disso este esquema é punido criminalmente e muito justificadamente). Pior
ainda, sendo um esquema que depende da entrada de novos contribuintes, a
segurança social entra em choque contra uma série de políticas activas de
destruição da natalidade: abortismo, casamento gay, e todo o género de “pequenas”
dificuldades criadas para quem quer ter filhos e que leva a muitos casais a
adiar ou abdicar da paternidade. As massas vão aceitando tudo isto porque lhes
dizem que é a inevitabilidade do progresso, que são as conquistas da liberdade,
quando nunca as pessoas foram tão prisioneiras da situação e o único progresso que
se assiste é o da conduta simiesca.
Não é por
acaso que se aconselhava a praticar a caridade de forma discreta e, de
preferência, até anonimamente. Quando os políticos falam em solidariedade feita
à custa de dinheiro alheio devemos desconfiar das suas verdadeiras intenções.
Hitler usou esta “solidariedade” para comprar os votos do povo, e é raro o
político que não ceda a esta tentação. Nos Estados Unidos, o New Deal foi a porta de entrada para o
Estado social, cujo verdadeiro objectivo foi o enfraquecimento da alma dos
indivíduos, tornando-os apáticos e medrosos, por forma a aumentar o poder
daqueles que mandam no Estado sobre as populações. Esta concentração de poder
foi adoptada no mundo inteiro, por vezes mais ferozmente em países ditos
capitalistas do que nos socialistas. Actualmente estamos numa fase bem mais
avançada, dado que a segurança social não se limita a comprar os votos povo e a
enfraquecer a vontade dos indivíduos. Ela tornou-se agora numa estratégia de
longo prazo tendo em vista a destruição das nações, que ficam obrigadas a
prover a uma série de “direitos adquiridos” até se atingir um ponto de ruptura.
A este respeito, ver, por exemplo, a estratégia Cloward-Piven:
A discussão
pública fragmentou-se numa miríade de questões subatómicas, cada uma delas
totalmente irrelevante e baseada em abstracções que nada dizem. Mas quem se viciou
neste tipo de questiúnculas, pensa ter encontrado nestes infinitésimos o solo
duro da realidade. Qualquer tentativa mais ampla de avaliar as situações
parece-lhes teoria da conspiração, ainda que lhes mostrem as evidências que
estão diante dos seus olhos.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
O dia em que Portugal morreu (3)
O que uniu aquelas pessoas que
se manifestaram no dia 15 de Setembro? Formalmente tratou-se de uma
manifestação contra o governo e contra a troika. Mas ninguém acredita
que todas aquelas pessoas queriam prescindir do resgate que o país vive e
iniciar um caminho totalmente diferente, se bem que isso tivesse algumas
vantagens. As pessoas estavam obviamente unidas por um sentimento de
insatisfação, mas se perscrutarmos as causas dessa insatisfação descobrimos
algumas coisas curiosas. Enquanto muitos protestavam contra a anunciada redução
efectiva de salários no sector privado, via ajustamento da TSU, outros
queixavam-se da degradação da situação dos funcionários públicos. Obviamente
que as duas pretensões implícitas são contraditórias no quadro actual. Uma
jovem de ar confuso reclamava que era cada vez mais difícil arranjar estágios
profissionais porque estavam sempre a sair novos alunos das universidades a
fazer-lhe concorrência, mostrando pouca solidariedade para com muitos dos seus
colegas de protesto que anseiam por uma primeira oportunidade profissional. Se
pensarmos em termos de pretensões mais conceptuais, havia quem queria
claramente mais socialismo e quem queria menos Estado, assim como quem queria
mais solidariedade europeia e aqueles que queriam desligar-se da Europa e do
Euro.
Isto
quer dizer que, se aquelas pessoas estivessem devidamente organizadas pelas
suas pretensões, assumindo um discurso em conformidade e fazendo as exigências
em consonância – ou seja, exigindo que outros assumam uma série de deveres
correspondentes aos direitos que elas reivindicam –, então, não haveria ali
qualquer união mas uma série facções degladiando-se. Na realidade, é
exactamente isso que acontece mas cada indivíduo não tem disso uma consciência
clara (porque a paga entre direitos e deveres não é directa), apenas uma
desconfiança difusa em relação a todos, que se materializa em certas circunstâncias
contra um bode expiatório. Em geral, são os próprios governantes que usam esta
estratégia para concentração de poder, através da variante “dividir para
reinar”. Ou seja, é mais fácil reinar quando o grupo está dividido em várias
facções, cada uma delas com pouca consciência do estado geral de coisas, pelo
que acabam por ceder ao poder mais focado e consciente de si mesmo e da
situação geral.
Mas
quando os governos são pouco hábeis politicamente, a mesma estratégia pode ser
usada por forças com pouca expressão eleitoral, que desta forma tentam
representar uma pretensa consciência unitária do grupo. Para isso, é necessário
domínio das modernas técnicas de propaganda e apoio da comunicação social, dois
requisitos cumpridos pela extrema-esquerda, em especial pelo BE. Uma carrinha
de caixa aberta distribuía aleatoriamente cartazes aos manifestantes, que os
aceitavam acefalamente, recebendo assim uma consciência emprestada. O cenário
orweliano está montado e quem entrou nele sem pestanejar pode ter sofrido danos
irreversíveis para a sua inteligência.
Passaram uns dias e o governo
recuou na alteração à TSU, para aumentar o IRS, e o resultado global para a
economia pode ainda ser pior. Mas todos reclamaram vitória e fingem que se está
a debater algo de relevante. O cidadão comum saltou do tacho para a frigideira,
deverá estar um pouco confuso. Valerá a pena entrar em nova manifestação e
correr o risco de ser colocado no micro-ondas?
domingo, 30 de setembro de 2012
O dia em que Portugal morreu (2)
O
que supostamente despoletou a manifestação de 15 de Setembro foi a
redistribuição da TSU (que será abordada noutra ocasião),
diminuindo a contribuição das empresas e aumentando a dos
trabalhadores. Na linguagem do Partido Comunista, isto seria roubar
aos trabalhadores para enriquecer o grande capital. Curiosamente, os
"grandes" capitalistas e os "representantes" do
patronato concordaram com isto e recusaram logo esta redução dos
custos do trabalho, que tão insistentemente tinham vindo a pedir.
Mais significativo ainda foi não terem apresentado, de forma
coerente, qualquer proposta alternativa, como se o ideal para as
empresas fosse manter tudo como está. Os "representantes"
do patronato, com a sua reacção imediata, não tiveram tempo para
averiguar entre os seus representados se a medida podia ajudar alguma
coisa, nomeadamente entre aquelas empresas que estão no limite entre
fechar ou continuar em actividade, pelo que convinha saber quem eles
representam realmente. Note-se que em nada disto suponho a justiça
ou eficiência da medida anunciada pelo governo, mas precisamente
assinalo que ninguém se interessa em saber o que está em causa.
Afinal,
que tipo de empresários temos nós? As exportações portuguesas
tiveram um aumento notável nos últimos anos. Os mercados externos
não se abriram de repente, sempre estiveram disponíveis, mas antes
qualquer empresário preferia colar-se ao Estado, de forma mais ou
menos directa, mas a teta estatal ameaçou secar abruptamente. Então,
aqueles empresários mais capazes e perspicazes fizeram o que tinham
a fazer, mas os outros entraram em pânico. António Borges chamou-os
de ignorantes, mas eles não são nem sábios nem ignorantes, são
apenas uns espertos que viveram à conta de um socialismo que agora
se mostra inviável. Toda e qualquer contestação ao governo da
parte do "grande capital" é apenas mero pretexto para
forçar o governo – este ou outro que lhe suceda – a se tornar
mais dócil e a conceder benesses de forma encoberta, os famosos
"estímulos à economia". Mas os empresários beneficiados
serão sempre aqueles com maior poder de influência, pelo que todos
os outros estão a ser burlados por aqueles que supostamente os
representam.
A
isto há que juntar as pressões dos detentores de fundações, que
não se contentam com as isenções de impostos e reclamam sempre
mais e mais subsídios para elaborar tarefas tantas vezes de duvidosa
utilidade, vide Mário Soares alarmado com os cortes que se
anunciavam.Sem
esquecer ainda que a anunciada privatização da RTP criou mais uma
série de inimigos na poderosa industria mediática devido à
escassez do mercado publicitário.
Longe
ainda deste quadro completar a fenomenologia do poder em Portugal,
percebe-se facilmente que as classes poderosas não se interessam
minimamente pelos destinos do país mas anseiam por um governo ao
estilo de José Sócrates, que continue a empurrar com a barriga uma
situação insustentável, enquanto concebe benesses por baixo da
mesa a estes mesmos poderosos. Quem paga, como sempre, é uma classe
média, que hoje já vive como se fosse uma classe pobre. Sobre estes
dedicarei o próximo post.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
O dia em que Portugal morreu (1)
Tal
como as árvores, os países podem morrer sem que alguém dê por
isso durante muitos anos. Para efeitos de raciocínio, entendo aqui a
morte de um país ou de uma nação – as precisões ficam para
mais tarde – como aquele ponto de não retorno em que não é
possível mais indireitar o estado de coisas sem que haja uma
refundação nacional, talvez só possível em diáspora. Obviamente
que não se trata aqui de fazer algum tipo de previsão científica
mas de deambular por um campo simbólico que nos permita vislumbrar
as razões mais profundas, sem entrar por uma busca de causas
remotas, que nos levaram até aqui.
Portugal
morreu no dia 15 de Setembro de 2012, data da manifestação contra a
troika e contra o governo, devido ao corte de ordenados que a
subida da TSU implicava. Como todas as manifestações, foi
organizada pela extrema-esquerda e apoiada de forma natural por toda
a comunicação social. A convocação pelo facebook
precipitou uma adesão maciça, e todo o país se mobilizou, ricos e
pobres, incultos e sábios, socialistas e liberais. A unanimidade
contra as últimas medidas do governo, assim como contra o resgate da
troika, seria uma coisa positiva se acreditássemos na remota
hipótese de todos terem percebido o que se passa: ou seja, todos
perceberam os erros cometidos; todos compreenderam a gravidade da
situação e o longo caminho que nos espera; todos sabem quais os
caminhos de saída e as formas de os trilhar, incluindo a maneira de
superar os obstáculos e os imprevistos.
Mas
se nos recusarmos a crer nesta espécie de omnisciência colectiva,
somos forçados a encarar esta unanimidade de forma mais sombria, e a
desconfiar se não estamos em presença de um tipo de estupidez
colectiva de consequências irreversíveis. Não me refiro
propriamente à estupidez dos manifestantes, muitos deles reagindo de
forma compreensível a mais uma espoliação, mas à estupidez da
generalidade dos comentadores, que tanto mais falaram quanto menos
raciocinaram. Passados alguns dias, disse para mim mesmo que esta
tinha sido a mais socialistas das manifestações que alguma vez
existiram em Portugal. Mas nem tudo estaria perdido se assim fosse,
dado que seguir de forma consciente um caminho, ainda que errado,
permitiria mais tarde corrigir a trajectória, precisamente pelos
escrúpulos que à consciência se ligam. Mas depois percebi que era
muito mais grave, que as pessoas tanto querem – seguindo a
desorientação reinante nas classes pensantes – um Estado
omnipresente como um Estado mínimo, querem ser totalmente livres
desde que severamente agrilhoados, querem voltar para uma Idade do
Ouro ao mesmo tempo que abominam tais fantasias, querem o fim da
crise assim como a sua eternização... A lista podia prosseguir
indefinidamente. Não se tratam de desejos contraditórios, tão
característicos do ser humano. Trata-se de uma marcha deliberada
para o abismo, surgida da coragem emprestada pelo colectivo.
Mais
tarde tratarei de concretizar estas imagens, que por ora parecerão
apenas toscas pinceladas poéticas a retratar um certo espanto.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
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