terça-feira, 21 de maio de 2013

Relatos do Inferno (6)

OVELHAS COM PELE DE LOBO

Tanto a mão invisível do capitalismo como a sociedade fraterna do socialismo prometeram terminar com o estado animalesco em que supostamente a humanidade vivia, onde vigoraria a lei do mais forte e a batuta sinistra da religião. A democracia, tanto a liberal como a socialista, seria a formalização do regime em que todos são iguais perante a lei ou, no caso socialista, o regime em que, através da lei, todos os homens se tornam iguais. Nas modernas sociedades, onde a luta ideológica se dá essencialmente entre liberalismo e socialismo, é natural que os dois conceitos de igualdade, negativo e positivo, acabem por se confundir. Os estrategas de ambas as partes acham que esta ambiguidade lhes pode trazer vantagens, porque vão tentar se apropriar de quaisquer associações positivas que o termo «igualdade» desperte no público, mesmo aquelas que contrariem o sentido restrito que eles usam quando debatem entre os do grémio.  

Contudo, tanto liberalismo como socialismo são ideologias de movimento, que apenas podem ser aplicadas num contexto onde se conserve um fundo estável. De certa forma, os elementos constitutivos das doutrinas liberal e socialista já existiam nesse fundo estável (mas não imóvel), porém os ideólogos descobriram que podiam montar sistemas teóricos apenas com determinadas partes, fazendo abstração das restantes. Bibliotecas inteiras podem ser lotadas com os livros que já foram escritos à volta destas construções mentais, mas ainda assim não é possível aplicá-las na prática sem mais. Pior que isso, a sua própria aplicação requer que seja eliminado aquele fundo estável que permite a sua própria sobrevivência no tecido da realidade.

Obviamente que uma certa dose de capitalismo faz parte deste fundo estável, tal como a própria construção do socialismo necessita da «electricidade» capitalista. Mas quando os liberais fazem abstracção das condições que deram origem ao capitalismo, e tentam fazer da liberdade (ou da propriedade) princípios de onde tudo se pode derivar, eles estão a cavar a sua própria sepultura, já que estão a tentar apoiar-se no vazio. Apesar de existirem algumas vertentes tradicionalistas no liberalismo, estas dão à tradição um propósito utilitarista, logo, esta perderá todo o seu sentido e, no longo prazo, a própria utilidade. Por outro lado, não podemos confundir o comunismo primitivo – que realmente é algo que existe mas apenas como fenómeno grupal, talvez não entre os verdadeiros primitivos – com o comunismo/socialismo enquanto teoria política, baseada na concentração do poder, e que apenas pode existir como movimento em direcção a si mesmo. Os intelectuais socialistas perceberam que a tradição também podia ser usada como meio revolucionário, usando o “apego” que o povo lhe tem mas ao mesmo tempo esvaziando a palavra do seu conteúdo original para a preencher dos fins socialistas.

Em suma, tanto socialismo como liberalismo são parasitas do conservadorismo (obviamente que isto não dei prova disto, apenas fiz alusão a alguns pontos que terão de ser descompactos por quem queira entender o que escrevi), apostados em matar o hospedeiro do qual retiram a sua existência, dado que acreditam que as suas abstracções são possíveis de se materializarem na realidade ou que elas mesmas possam ser geradoras de uma realidade autónoma. Então, quanto melhor sucedidas forem estas ideologias – isoladamente ou em conjunto, como se verifica actualmente – mais elas se aproximam do seu próprio fim, conduzindo a igual destino as sociedades que lhes servem de cenário. Não pretendo tirar daqui uma teoria que explique estas ideologias cientificamente (no sentido de episteme), mas apenas apresentar um enfoque específico que ressalte alguns aspectos. Ora, o facto de liberalismo e socialismo serem ideologias de movimento, no sentido de se basearem num destacar de certos elementos e fazerem tudo girar à sua volta (e assim descentram a civilização ao criar novos centros que não têm a potência para tal), vai ter profundas implicações psicológicas. Essas implicações estão em grande parte ocultas nos regimes abertamente totalitários, que se baseiam num capitalismo de Estado e num controle policial da sociedade, pelo que ovelhas e lobos estão bem identificados, e a relação entre presa e predador consiste num levar ao paroxismo algo que existe desde sempre – o abuso da força por quem a possui –, embora o fenómeno em si tenha algumas coisas inéditas em relação ao passado. Nas sociedades democráticas, o facto de haver ovelhas e predadores é considerado uma anomalia a extirpar pela lei, seja preventivamente ou correctivamente. Resta questionar quem vai garantir a igualdade em democracia, quem vai garantir que não sejam cometidos abusos de força.

Numa sociedade tradicional, há uma divisão em dois planos: num deles, o terreno, a lei existe para punir os crimes mais graves e que ponham em causa a própria estabilidade social; depois há uma moralidade de inspiração religiosa, que ficava largamente a cargo de cada um desenvolver por conta própria ou com ajuda de algum sacerdote. Esta distinção vai desaparecer no mundo moderno, onde tudo se torna imanente, e aquela parte que era um movimento na alma humana passa apenas a ter uma manifestação mundana, representada pelas aspirações a que procuram responder as ideologias de movimento. Isto quer dizer que a pretensão de igualdade rapidamente se multiplica na busca de todo o tipo de perfeições que se transferiram do plano da perfeição religiosa – que todos sabiam que eram impossíveis de cumprir – para o plano mundano. Tudo isto aparece ainda muito embrulhado no mundo burguês, mas depois a ciência ergue-se como juiz daquilo que o homem deve ser, e aí torna-se um imperativo moral todos contribuírem para tal. Entretanto, as ideologias adaptaram-se a estes desenvolvimentos, largamente provocados por elas, e apesar de proporem soluções aparentemente opostas, tanto socialismo como liberalismo estão juntos no propósito de afastar o homem da transcendência, implicando isto a perda da medida de todas as coisas. Não por acaso, as ideologias surgem como um misto de ciência e seita religiosa propícia ao apostolado.

Neste quadro, torna-se evidente que não basta procurar respostas naquilo que a democracia constitui formalmente. Supostamente, o Estado tem o monopólio da força, mas o seu exercício é fiscalizado por órgãos independentes, alguns que são fruto da representação popular. Não só o Estado já ultrapassou há muito às suas funções mínimas como o fez não por ter alterado a sua natureza (entenda-se que me refiro ao Estado moderno) mas sobretudo através da expansão “natural” das suas funções nucleares, que os próprios liberais tradicionais aceitam. Então, é largamente irrelevante saber quem vai ocupar os lugares formais no poder, não só porque é mais importante o controlo do acesso a esses lugares mas, sobretudo, porque o fundamental é o controlo daquilo que é pensável e pode surgir como opção.

Neste contexto, o predador é aquele que domina psicologicamente os outros, não tanto em termos de poder pessoal mas sobretudo na forma como pode determinar a cosmovisão alheia. O predador vai ser aquele que conseguir encarnar melhor a ideologia dominante no ambiente em que se encontra, e essa ideologia pode perfeitamente ser uma mistura de liberalismo com socialismo, e ainda ter algo de conservadorismo cristão. Vão surgir dois grupos: um composto por aqueles que realmente têm poder de influência sobre os outros; e outro onde estão aqueles que, à força de não conseguirem resistir ou sequer perceber a dominação mental a que estão sujeitos, se tornam paladinos do opressor. Os primeiros são lobos com pele de cordeiro, são os redentores da humanidade, os revolucionários que querem controlar tudo para criar um mundo melhor, nem que para atingir esse objectivo tenham que exterminar a espécie humana. O segundo grupo é composto pelas ovelhas com pele de lobo: são aqueles “amigos” que se escandalizam se acharmos que algo não vai bem neste mundo, aqueles que nos vendem a sua afeição a troco do esquecimento e da homenagem aos ídolos do momento, aqueles que nos censuram se não seguirmos o politicamente. Se no regime totalitário explícito o lobo é a polícia política, o serviço secreto ou até o denunciante anónimo, em democracia o lobo vai actuar em primeiro lugar agindo sobre o grupo de ovelhas mais próximas de nós. Os verdadeiros lobos aprenderam que era mais simples convencerem as ovelhas a policiarem-se umas às outras do que serem eles a fazer esse trabalho.

Na verdade, as modernas democracias totalitárias encaminham-se para ser regimes ainda mais compressivos do que as ditaduras comunistas. Qualquer ditadura preocupa-se sobretudo em manter um círculo de protecção à volta do núcleo do poder, e para isso tenta controlar as movimentações militares e políticas, tendo ainda alguma propaganda que só é acreditada pelos idiotas que vivem fora e são fãs do regime. Mas a democracia não pode deixar ninguém de fora, a opinião de cada um conta, mesmo a das criancinhas. Então, a propaganda é substituída por algo muito mais subtil e poderoso: a indução de condutas e sentimentos de base através das modernas técnicas de manipulação de massas, facilitada pela própria riqueza gerada pelo capitalismo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Relatos do Inferno (5)


O PSICOPATA ILUSTRADO

A melhoria das condições materiais e morais dos portugueses tem sido comummente associada à educação escolar, essa paixão de um antigo primeiro-ministro e uma prostituta ao serviço de um sem número de “boas intenções”. Segundo esta crença, quanto mais educação tiver uma pessoa mais abastada ela será e também mais apta estará a uma conduta moral adequada. O conhecimento é, sem dúvida, fundamental para a obtenção de riqueza, e já Tales de Mileto teve fama de enriquecer à custa da sua sabedoria, apesar de a usar fundamentalmente para investigar outras coisas. Também em relação à conduta moral, o ignorante pode decorar uns mandamentos ou umas regras morais, mas se não for devidamente instruído (ilustrado) não saberá aplicá-las às situações concretas da vida.

Contudo, será legítimo associar a apreensão de conhecimentos à educação formal e, em especial, à moderna educação de massas? Estudos mostram que boa parte dos milionários nos EUA não possuem diploma universitário (entre alguns exemplos temos Bill Gates, Steve Jobs, Larry Ellison, Michael Dell e, noutras paragens, Li Ka-Shing, tido como o homem mais rico da Ásia). Obviamente que estes milionários possuem muitos licenciados e doutorados a trabalhar para eles, mas se as universidades fornecem conhecimentos específicos úteis para desempenhar certas funções, elas não oferecem o conhecimento necessário para ver o negócio como um todo, malgrado a profusão de cursos de gestão. Em geral, o graduado que é extremamente competente em termos profissionais tende a desenvolver uma mentalidade que é o oposto daquilo que pode tornar um homem rico – a “preguiça” de deixar o dinheiro trabalhar por si –, já que se torna um controlador de todos os aspectos do negócio (ou contenta-se em ser um mero assalariado com fama de génio). O negócio não pode assim se desenvolver por si, mesmo que tenha por base um excelente produto em termos técnicos, porque é essencialmente o trabalho de uma pessoa só e, logo, está preso às limitações do indivíduo humano isolado. Mas se, ao invés de olharmos para o topo onde se encontram os milionários, nos focarmos no que se passa num segundo nível, onde se encontra a elite dirigente empresarial e política, veremos que este patamar é quase integralmente preenchido, ao menos nos EUA onde isto já foi estudado, por aqueles que frequentaram colégios privados que ministram a antiga educação liberal e desprezam os modernos métodos e conteúdos de ensino.

Então para que serve a educação de massas que temos, que criou a geração “mais qualificada de sempre” mas que apenas lhe resta um país com uma das maiores crises da sua História? Se tentarmos traduzir esta educação em resultados económicos não vamos ter muito sucesso. Existe uma tendência, herdada tanto do marxismo como do liberalismo, de equacionar tudo em termos económicos. Contudo, a economia é algo que não existe em si, é apenas um resultado largamente impremeditado de um conjunto de forças em movimento nas sociedades. Pretendo aqui apenas avaliar a nossa educação de massas a partir de alguns efeitos que ela provocou e que qualquer um pode comprovar, usando como termo de comparação o cidadão comum que não teve o privilégio de receber uma educação superior.

O cidadão comum sabe que existe a verdade e a mentira, mas o universitário ultrapassou este dualismo limitador, seja por achar que existem várias verdades, seja por achar que a verdade é apenas uma convenção social ou, então, uma imposição de uma classe dominante e, por isso, passa a ser um dever derrubá-la. Na realidade, o ataque à verdade é apenas um estratagema para mentir impunemente, seja por razões ideológicas ou por mera auto-recreação, já que o adolescente quando começa a dominar a “arte do pensamento” fica fascinado com o poder de manobrar outras pessoas e também com a possibilidade de criar e manter todo o tipo de ilusões que o libertam das frustrações da vida real. Mas o homem instruído não se limita a viver num relativismo absoluto. Apesar de não acreditar em verdade e em mentira, também não abdica totalmente delas. De facto, ele não hesita, quando em confronto com adversários honestos – os idiotas que ainda acreditam em verdade e em mentira –, em acusá-los de falsidade, para no final lhes atirar à cara uma “verdade” que lhe convém. É a estratégia de usar as armas do inimigo, que irá ficar paralisado e confuso, e que tentará depois defender a sua honra racionalmente, sem perceber que está a ser vítima de um esquema de dominação mental. Não tem sentido argumentar racionalmente com quem não acredita na existência da verdade, porque este nunca dará crédito ao mais óbvio dos argumentos, ao mesmo tempo que irá atacar impiedosamente tudo aquilo que seja menos claro na argumentação adversária, mesmo que esteja em causa apenas uma dificuldade linguística. O relativista pode simplesmente desconversar porque conta com a ingenuidade e polidez do seu interlocutor. Então, o homem instruído vencerá o debate pelo cansaço, talvez até fazendo o homem honesto duvidar da existência da verdade, ou então mostrar-se-á enfastiado com a discussão, caso não consiga manobrar o seu adversário, deixando claro que para ele nada foi provado e que aquilo são conversas de pessoas limitadas que não conseguem ver mais além. Só tem sentido enfrentar um adversário que não acredita na verdade se o objectivo for desmascarar a sua tentativa de manipulação psicológica, caso contrário é pura perda de tempo. A destruição da verdade não tem apenas influência ao nível das discussões pessoais, já que isto fez escola em algumas “ciências” e é o fundamento do jornalismo moderno. Não existindo verdade, resta o discurso, pelo que o único objectivo válido é tentar que o nosso discurso se sobreponha ao do outro.

O homem comum acredita na existência do bem e do mal, mas o homem com formação superior considera-se liberto desta prisão que ele considera ser a moral antiquada nem irá submeter-se a sentimentos de culpa. De certa forma, sem a crença na existência da verdade, estão abertas todas as portas do inferno. Contudo, é possível ser céptico sobre a existência da verdade e ainda assim manter elevados padrões morais, ainda que não se consiga justificá-los. Então, a relativização moral é um combate que se trava também de forma independente, e não é raro que, depois da pessoa se ter corrompido, ela vá encontrar no dogma da morte da verdade um alívio para a sua consciência. Tal como o ataque à verdade é um pretexto para mentir com estilo, o ataque ao «bem» não é mais que uma apologia encapotada do mal sem culpas. A moral tradicional é tanto um caminho positivo (fazer o bem) como negativo (evitar o mal). O ataque ao bem não é propriamente a eliminação da moral mas a criação de uma moral alternativa, uma ersatz. Na nova moral, a componente positiva “obriga” a fazer não o que é bom mas aquilo que nos é útil ou que nos dá prazer. A componente negativa diz para evitar aquilo que a lei proíbe (e que é efectivamente fiscalizado, já que não há aqui um respeito pela lei mas apenas temor em relação a ela) e também prescreve que é de bom-tom evitar o choque contra aquilo que o consenso grupal ditou. Por um lado, deixamos de estar sob a mão benevolente de Deus – cujo perdão nos é negado para o todo-sempre –, e passamos a estar sob alçada do Estado, que passa a ter permissão para entrar em todos os domínios humanos e que não conhece o conceito do perdão. Por outro lado, a nova moral permite níveis de devassidão, corrupção e até de atentados contra a vida que seriam inconcebíveis no passado, mas depois apresenta todo o tipo de limitações sem justificação e que podem mudar de um momento para o outro, segundo a volatilidade da produção legislativa ou da sabedoria da “ética grupal”. O indivíduo fica imbecilizado porque «pode fazer tudo» sem que seja recriminado mas parece que, ao mesmo tempo, «não pode fazer nada» sem que haja qualquer justificação para isso. Os antigos moralistas que viviam acusando o próximo e condenando-o ao inferno agora aparecem multiplicados em incontáveis fiscais da nova moralidade (hoje está na moda ensinar até as criancinhas a fiscalizar a conduta dos pais, naturalmente para criar um mundo melhor…), e se já não condenam ninguém ao inferno, tentam que a vida do próximo se transforme num.

O indivíduo comum também acredita no belo e no feio, mas o psicopata ilustrado não se deixa iludir por categorias estéticas tão limitadas, no seu parecer. O presente culto da feiura pode ocorrer em três casos distintos. No primeiro caso começa como uma legítima exploração dos limites de compreensão estética que todos temos, havendo aqui um paralelo com o percurso dos grandes criadores, que sempre chocaram os públicos dos seus tempos. Quem não tem uma sensibilidade estética desenvolvida vai ficar apenas agradado com aquelas coisas mais óbvias, ficando fechado a uma beleza mais profunda e subtil. Contudo, a determinada altura esta abertura pode se transformar noutra coisa: já não estaremos a identificar aquilo que a obra de arte tem de “oculto” mas passamos a projectar nela qualidades inexistentes, ou seja, a experiência deixa de ser estética e passa a ser uma perversão intelectual. Claro que é legítimo intelectualizar sobre uma obra de arte, mas aqui a obra passa apenas a ser mero pretexto para um jogo de enganos. A quase totalidade da arte moderna consiste na produção de um objecto por um cretino que conta com a apreciação de um bando de imbecis. Claro que o objecto em si não é totalmente indiferente, pelo menos no início da arte moderna ele tinha de ter alguma ligação à verdadeira arte, mas depois foi se afastando cada vez mais, até presentemente ter apenas um resquício homeopático da verdadeira arte. Apenas interessa que o objecto seja um símbolo do (e para o) próprio mecanismo mental, espelhando a sua feiura estrutural. O segundo caso é o uso da feiura como objecto de engenharia social, nomeadamente na arquitectura moderna e no design industrial, tratando-se de um mecanismo conhecido de depressão da inteligência. Finalmente, existe a o culto da feiura por simples incapacidade em suportar a beleza. Quando se renega o Bem e a Verdade, o Belo, que completaria a trindade, torna-se ofensivo, como se fosse um dedo acusador sinalizando uma personalidade deturpada. Então, o grotesco, o hediondo harmoniza-se perfeitamente com as personalidades falsas e más. O culto pelo cinema do psicopata genial, amante de música erudita, é apenas uma sedução, pois aquela personagem não pertence ao nosso mundo, é apenas um ideal mefistofélico.

Todas estas coisas naturalmente que se alimentam umas às outras, criando uma quarta distinção entre o homem instruído e indivíduo comum: apenas este último acredita ainda na existência de realidade. Somente o homem altamente instruído pode viver num mundo criado mentalmente, já que isso exige um esforço cognitivo formidável. O sábio de hoje já não quer saber como as coisas são mas apenas naquilo que podem se transformar, e quando o estudioso investiga o estado presente de coisas é apenas em vista daquilo que estas podem vir a ser por via da acção humana.

Será plausível que a universidade se tenha transformado numa máquina de criação de sujeitos alienados, falsos e maléficos? Alguns cursos em ciências sociais visam de facto este objectivo e a sua disseminação pela sociedade. Mas mesmo os frequentadores dos cursos clássicos parecem vir a desenvolver o mesmo tipo de mentalidade. Não é necessário que as universidades sejam máquinas de lavagem ao cérebro, basta fornecerem algumas ferramentas mentais evoluídas junto a um corte obrigatório entre pensamento e realidade. Depois, cada indivíduo vai se barbarizando pela simples contaminação de ideias circulantes, eivadas de mentalidade revolucionária, trabalhadas a partir das deficiências estruturais adquiridas na universidade. Isto já consigna um esforço enorme, e por isso poucos vão querer abdicar dos frutos deste trabalho mesmo se lhes mostrarem que ele consiste apenas num processo de emburrecimento elegante. E quanto mais tempo o indivíduo estudou dentro da academia, mais ele fica enredado nesta teia de cretinismo, pois agora já não é uma mera questão de conhecimento, já envolve uma profissão, um estatuto social, um grupo de amizades e assim por diante. Por isso, tantos ilustrados cheios de títulos universitários aparecem nas tribunas apenas para proferir os disparates mais bestializantes ou então limitam-se a explicar por frases rebuscadas aquilo que qualquer taxista diria com meia palavra.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Relatos do Inferno (4)


TRABALHO E IRRELEVÂNCIA

Toda a discussão sobre o trabalho anda à volta de abstracções sociológicas, económicas ou legais. Tudo isto é legítimo se o próprio fenómeno em si já está bem descrito, caso contrário as discussões irão se materializar em valores, leis e métodos de trabalho que irão alienar as pessoas, sempre instigadas a melhorar a sua produtividade quando elas não fazem, literalmente, a mínima ideia do que andam a fazer. Não é lugar aqui para fazer uma descrição fenomenológica do «trabalho», e apenas pretendo salientar alguns aspectos a seu respeito relacionados com a vivência de cada um de nós.

Do ponto de vista do trabalhador, tem sentido falar em 3 fases distintas, não validando isto a teoria de Alvin Toffler das “três ondas”, pela qual ele tenta explicar quase tudo o que acontece no mundo. O simplismo de Toffler torna-o apto à mentalidade pragmatista americana, por lhe ser apresentada uma explicação fácil por agregados da qual se podem derivar uma série de normas e indicações práticas para o indivíduo. Algum acolhimento que Toffler recebe na Europa penso que advém de um equívoco, já que o conceito das “ondas” ainda produz ressonância no historicismo positivista ou marxista, ao mesmo tempo que a simplificação do indivíduo, que o americano vê essencialmente como um procedimento de efeitos práticos, adapta-se ao europeu na sua progressiva dissolução da personalidade. Mas o ponto que quero salientar não visa o abstracionismo/pragmatismo/historicismo e sim entender as implicações, em termos de personalidade humana, que a evolução do trabalho provocou, sem ter a pretensão de achar aqui uma chave explicativa única.

Há desde logo uma questão prévia, porque as três formas de trabalho que irei abordar (agrícola, industrial e pós-industrial) remetem todas para a existência da sociedade organizada. Antes disto, não podemos propriamente falar em trabalho, pois existem apenas tarefas necessárias à sobrevivência dos grupos – obtenção de alimentos, construção de habitações, protecção do grupo, cura física e espiritual –, mas nada disto tem a forma de um contrato nem pode conduzir a distinções de classe. Há um grau de determinismo naquilo que o indivíduo vai ser neste contexto, e se nasceu homem ou mulher, saudável ou doente, forte ou carismático, isso conduzirá a uma função. E isto não é bom nem mau, é a única coisa concebível, pois para o primitivo, de certa forma, só a sua tribo faz parte do domínio do ser. Na realidade, aquilo que um indivíduo faz não é muito diferente do que faz qualquer outro de faixa etária semelhante, e grande parte das actividades são grupais. Para nós, a imagem da tribo primitiva tem algo de paradoxal, ao mesmo tempo vemos ali uma liberdade da ausência de constrangimentos sociais mas, por outro lado, há o determinismo tribal que limita o indivíduo a ser apenas uma coisa e nada mais ele pode sequer conceber.

Então, quando a agricultura se estabelece, significa isto a libertação do determinismo tribal, com a abertura para uma miríade de possibilidades de acção e de concepção do mundo, ou é a inauguração de uma era de servidão em que vivemos até hoje? Na verdade as duas coisas ocorrem, mas para nós é hoje impossível voltar ao estado primitivo. Aqueles que fogem das cidades e vão viver em condições rudimentares para o campo estão apenas fingindo ser primitivos, porque a sua mentalidade é totalmente «civilizada», não tem a ingenuidade, as limitações nem a «pureza» daquela do primitivo. Até o mais ignorante dos camponeses da aldeia mais isolada é cosmopolita comparado com qualquer membro de uma tribo primitiva, porque ele sabe que o mundo não se restringe à sua aldeia e que o seu trabalho, ainda que largamente de subsistência, produz algo que pode ir parar a outras mãos, possivelmente até de pessoas que ele desconhece.

Mas isto já é adiantar muito a história, já que certamente que os primeiros agricultores ainda eram membros da tribo, mas algo já tinha mudado. A agricultura, mais do que fixar as populações num certo lugar, fez com que alguns homens entendessem que podiam manipular o curso do mundo. Agora, o cenário de actuação não era apenas a natureza imprevisível, onde o homem apenas podia tentar se adaptar da melhor forma possível. O homem passava a poder introduzir a sua interferência e assim também ter um domínio maior o seu próprio futuro. Contudo, nem todos os homens possuíam entendimento idêntico sobre o processo, pelo que o domínio da natureza iria, mais tarde ou mais cedo, traduzir-se num domínio de uns homens sobre outros homens. Quando hoje falamos em sociedade do conhecimento, claramente não fazemos a mínima ideia do que estamos a falar.

De certa forma, o início do trabalho organizado é uma “perda da inocência” mas também a porta para o desenvolvimento da consciência. O trabalhador agrícola, livre ou escravo, tem uma ligação muito próxima com o produto. Este está bastante ligado ao meio ambiente, que é o mesmo para todos e assim a agricultura era um elo comum a toda a sociedade. Até ao advento da industrialização, toda a sociedade tinha um cunho agrícola, e mesmo quem desempenhava outras funções tinha também um pedaço de terra cultivado, além de que a própria industria artesanal dependia daquilo que a agricultura podia suportar, e sabemos como foram dramáticos alguns maus anos agrícolas.  

Muitas coisas alteram-se com a industrialização, não surgindo apenas um trabalho fisicamente diferente, num ambiente agora fechado e geralmente citadino. O trabalhador já não lida com o produto final como um todo, ele corta umas placas de metal, opera uma determinada tecedeira mecânica, pinta determinada peça e assim por diante, dentro das exigências da divisão do trabalho. Na fábrica, ele está isolado do meio ambiente, não tem geralmente contacto com o produto final acabado, se é que alguma vez chega a vê-lo, e está mesmo isolado na sua função, cujo contributo para o todo se torna cada vez mais difícil de vislumbrar. Durante horas seguidas repete as mesmas tarefas mecânicas, o que não ajuda nada à sanidade mental. Mas há outros factores que surgem com o trabalho industrial. Enquanto que na agricultura o patrão trabalha frequentemente ao lado do empregado (e era normal o escravo grego ou romano trabalhar ao lado do seu senhor) e mesmo quando não o faz está igualmente dependente dos ditames do tempo, agora o dono da fábrica vive num mundo à parte, que é infinitamente misterioso para o trabalhador. Aqui os socialistas surgem para dar aos trabalhadores uma explicação sobre como funciona a máquina social, que resulta ao menos como terapia contra a disrupção mental provocada pela mecanização. Mas mesmo neste cenário, existe alguma noção do que se anda a fazer, e todos sabem quantos carros, panelas ou frigoríficos a fábrica produziu.

Quando chegamos à sociedade pós-industrial – sociedade dos serviços, do trabalho intelectual, da informação, etc. –, inicialmente parece que há uma subida de patamar, pois elimina-se o trabalho físico repetitivo e aposta-se no desenvolvimento das faculdades cognitivas, exigindo-se qualificações cada vez maiores. Contudo, algo nesta imagem parece não bater certo com a realidade. O trabalho no escritório parece ser fisicamente confortável, mas ao fim de poucos anos as pessoas mostram um envelhecimento precoce, apresentam má postura, surgem lesões nos braços e mãos por uso do computador, começam a dormir mal, aumentam os problemas respiratórios, começam a ver cada vez pior devido à má iluminação e aos monitores dos computadores, e assim por diante, considerando apenas os problemas derivados das condições materiais. A promessa do trabalho intelectual também fica, em geral, por cumprir, porque passada uma fase de aquisição de alguns conhecimentos, segue-se uma rotina monótona e com poucas novidades, que podia ser desempenhada por qualquer idiota. Pior que isso, cada vez menos as pessoas sabem para que serve o seu trabalho. Uma empresa pode ter milhares de pessoas e o seu produto final ser apenas um componente para outro produto e assim por diante, e há mesmo muitas companhias que nem sequer produzem alguma coisa tangível. Internamente, as chefias dizem ser importante fazer isto e aquilo, para uns meses depois darem o dito pelo não dito e nem sequer ser dada qualquer explicação. Estimo que numa empresa com alguns milhares de pessoas sejam elaborados centenas de relatórios mensais que ninguém lê e feitas milhares de reuniões cujas conclusões todos irão esquecer. E quando o trabalho se torna assim irrelevante, começa a sobrar tempo e engenho para dedicar à sabotagem de colegas, à fuga às responsabilidades, à auto-promoção à custa de terceiros e a todo o tipo de actividades paralelas. E afinal, quem manda na empresa? As chefias multiplicam-se, mas a própria administração depende dos accionistas, que podem ter atrás grupos de várias partes do mundo, que a qualquer altura podem decidir ir para outras paragens.

Então, o trabalho moderno tornou-se numa estadia no hospício (e estou a falar apenas nas situações “normais”, sem entrar em dificuldades de toda a ordem que ainda se acrescentam na realidade) precisamente quando o grande desígnio de vida para o homem moderno passou a ser a realização profissional, substituindo a realização espiritual. Obviamente que esta substituição é um embuste destinado a criar um novo tipo de homem dócil à sociedade industrial e pós-industrial. Mas afinal, o que consiste essa tal de realização profissional? Se é um objectivo de vida, então só pode estar associada à melhoria significativa das condições de vida e não pode ser apenas consistir em fazer bem o trabalho e receber umas pancadinhas nas costas. Claro que há sempre aqueles que conseguem estar no centro da acção e subir vertiginosamente na hierarquia, e que depois vão contar o seu percurso aos iludidos que acham que aquilo está disponível para qualquer um que tenha vontade suficiente. Mas basta pensar que os lugares de topo sempre serão reduzidos para concluir que o objectivo da realização profissional produz apenas infelicidade ou apatia, no caso dos cínicos, que é naquilo que quase todos inevitavelmente se irão transformar.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Relatos do Inferno (3)


ENCENAÇÃO DE DEMOCRACIA

É comum o desalento em relação à democracia, não tanto considerada em abstracto mas sobre aquela que realmente temos. Então, a democracia em si é vista como uma coisa boa, associada à liberdade, ao progresso, à prosperidade, ao combate às injustiças e assim por diante. Se tudo isto não se cumpre é porque a nossa democracia não é autêntica, e logo nos apressamos a dar exemplos, a respeito de matérias avulsas, onde democracias estrangeiras mostram os seus galões. Suspiramos e concluímos, um pouco consternados mas também vaidosos por acharmos que descobrimos uma grande verdade, que não temos uma verdadeira democracia, temos apenas uma encenação de democracia.

Há algo de esquizofrénico nestas patéticas lamentações. Os desiludidos com a democracia nunca param para questionar o que a democracia é em si – e em seguida deveriam averiguar as possibilidades de termos um funcionamento razoável de tal sistema –, limitam-se apenas a identificar a democracia pelas qualidades que os seus apologistas propagandeiam. O mesmo se passa com o socialismo, que nunca é avaliado por aquilo que ele é – um processo de concentração do poder nas mãos de uma mesma classe – mas pelas qualidades que lhe são atribuídas, criticadas por uns, veneradas por outros. Ademais, como se tratam de qualidades e não da essência do fenómeno, cada um pode escolher aquelas que melhor servem o seu propósito, de prosélito ou de detrator, e assim o socialismo pode ser óptimo ou terrível por abolir a propriedade privada ou por dar a cada um conforme as suas necessidades e exigir a cada segundo as suas possibilidades, pode abolir as classes sociais ou por fazer de um mero varredor de rua um Miguel Ângelo ou um Aristóteles, por abolir o Estado ou por criar um Estado que tudo engloba, por ser democrático ou por ser anti-democrático, por dar o poder ao povo ou por tirar toda a liberdade ao povo, etc. Este mero elencar de qualidades mostra que a discussão a respeito do socialismo não é séria e limita-se a um disputa retórica.

Voltando à democracia, a sua essência é, supostamente, a distribuição do poder por várias entidades independentes umas das outras. Em geral isto é esquecido mas, como num processo neurótico, é uma crença sempre presente. Em parte, creio que as acusações de que a democracia se tornou numa farsa derivam de ser notório de que não há uma verdadeira separação de poderes mas um bloco unitário que ocupa de forma tentacular as várias sedes do poder. Contudo, a discussão transmutasse “alquimicamente” para as alegadas qualidades da democracia, e começa uma cacofonia que mete crescimento económico, desigualdades sociais, direitos e liberdades, subsídios e estímulos, privatizações e regulamentações, e assim por diante. Não que cada um destes itens não seja merecedor de discussão, mas cada um acha que a democracia é, obviamente, um conjunto de qualidades que ele mesmo escolheu de forma aleatória e doseadas conforme o gosto do momento, e acha inacreditável que se viva em democracia e estas coisas não existam por magia.

Mas o que é tudo isto senão uma encenação? Todo o exercício do poder organizado envolve algum tipo de encenação, por vezes mesmo alguns rituais, mas na democracia isto não é um mero condimento estético. Não é difícil imaginar a democracia grega no seu aspecto teatral – e creio que está ainda por avaliar o quanto o teatro grego deu ao processo civilizacional –, o que é uma exigência do modelo directo. Contudo, a criação e manutenção de ilusões na Grécia Antiga era muito limitada, além de que o controlo dos factores numa democracia directa ser muito precário. Quando a democracia se tornou representativa, a encenação tornou-se, digo-o eu, numa sua característica essencial, embora não reconhecida formalmente. É também uma época em que o mundo é visto como um teatro, e como não iria isto invadir os parlamentos, que se tornaram nos palcos por excelência?
  
Ora, quanto mais mediática se torna a sociedade, menos as discussões parlamentares visam os interlocutores oficiais – ou seja, os políticos já não falam realmente entre si –, mas encenam papéis tendo em visto um espectador padrão. O jornalismo adoptou mesmo a figura do “idiota padrão” para saber se o que publica tem eficácia comercial. Em geral, até mesmo as discussões pessoais sobre assuntos públicos “democratizaram-se”, ou seja, a comunicação verdadeiramente humana foi substituída por uma encenação a ser aplaudida pelos idiotas do mundo.

Isto tem consequências absolutamente notáveis. O debate democrático chegou com a promessa de fazer luz sobre as questões, o que podemos traduzir como uma passagem de um mero discurso retórico, ao nível da verosimilhança, para a probabilidade elevada do discurso da dialéctica clássica. Creio ser possível demonstrar que esta passagem jamais pode ocorrer como fenómeno colectivo mas apenas se dá na consciência individual. Claro que o mesmo “insight” pode ocorrer a vários indivíduos quase que simultaneamente, mas trata-se de um evento extremamente raro, que depende de uma coincidência de certos factores: as várias pessoas envolvidas têm que ter níveis idênticos de atenção, compreensão, conhecimento, inteligência, etc. Isto acontece em discussões puramente técnicas, onde as pessoas envolvidas foram treinadas precisamente para chegar a um estado cognitivo adequado a este tipo de “insights”. Contudo, as questões públicas não podem ser delimitadas da mesma forma que as questões técnicas, onde cada pessoa já conhece de antemão todas as variáveis envolvidas. É tão provável duas pessoas perceberem as mesmas coisas numa discussão pública como dois indivíduos terem o mesmo sonho com todos os detalhes.

Mas como é possível ver tantos militantes convictos seguindo um líder político se nenhum deles entende o mesmo que o outro ao lado? Porque nenhum deles está apostando na clave do conhecimento, simplesmente deixam-se ser seduzidos. E não existe fascínio tão grande como aquele que o bebé sente pelos pais, e isto é uma pista que indica que, também em democracia, os políticos representam as pessoas tal como os pais representam os filhos menores. Em termos cognitivos, o debate democrático não é uma passagem da retórica à dialéctica mas uma regressão da retórica à poesia e ao mito. Ou seja, é uma exploração do meramente possível, onde tudo é permitido e para onde todos os sonhos podem confluir. O fenómeno não tem que ser “puro”, já que o militante que se deixa embalar no sonho do político pode, paralelamente, estar elaborando complexas justificações, que depois o iludem de ter feito uma escolha racional e não uma baseada em puras emoções infantis, como de facto ocorreu. Da mesma forma, aqueles que procuram uma ascensão rumo à verdade, pela dialéctica e pela lógica, podem e devem colorir esta pesquisa de retórica e poesia, que são os garantes de inserção no mundo real via imaginação. Os quatro discursos não são modalidades separadas mas fazem parte de uma potência única, como demonstrou o filósofo Olavo de Carvalho, mas há que saber qual é o grau de credibilidade que cada um possui.

Que implicações tem desta democracia representativa encenada? Esta democracia veio junto a outras novidades no pacote modernista iluminista, que assegurava que iria tirar as massas da obscuridão e colocá-las no caminho da racionalidade. O desenvolvimento de certas ciências e da tecnologia parecia confirmar isto, mas afinal tratam-se apenas de habilidades largamente mecanizáveis e que nada ensinam sobre como tomar opções num mundo com um número indefinido de variáveis. Para estas questões está reservado o debate democrático, no qual o cidadão comum entra sem perceber, achando que o grupo vai transportá-lo para um debate mais racional, quando na realidade apenas o faz mergulhar num teatro de ilusões, em que a verdade é confundida com algum tipo de emoção grupal. Ainda aqui continuam existindo hipóteses em conflito, entenda-se, mas a opção por uma ou por outra não está nos méritos próprios mas apenas na capacidade de adesão emocional que os seus proponentes conseguem desencadear. Naturalmente que isto tem conduzido a todo o tipo de decisões aberrantes e para evitá-las de nada serve desmontá-las racionalmente, apenas é possível fazê-lo criando uma sensação de mal-estar em seu redor.

A democracia como encenação trouxe ainda outra consequência que não está apenas ao nível da discussão pública com vista à tomada de decisões. A própria discussão privada foi mimetizando a discussão pública, fazendo de cada pessoa um actor improvisado. Assim, todos se transformaram em fiscais da democracia mesmo em meras conversas de café, onde só é de bom-tom falar de certos temas e as maneiras apropriadas, sempre de acordo com o padrão democrático veiculado pelos meios de comunicação social. Estes simulam haver um poder e uma oposição, dando por isso a ilusão de que tudo o que é razoável já estar representado, pelo que aqueles que se atrevem a sair destas pautas caem numa espécie de não-ser merecedor do mais vívido desprezo e a mais veemente censura. Isto quer dizer que a famosa liberdade de expressão se tornou na obrigação de papaguear algo que algum idiota na televisão já disse, ou então mostrar um silêncio complacente. Qualquer um pode testar isto e afirmar junto aos “amigos” alguma ideia que não tenha ressonância em alguma posição mediática, ainda que seja de algum grupo minoritário, e verá como o olham com horror, com se lhe tivesse nascido um olho na testa.

Se a democracia representativa, tal como se veio a consolidar, conduziu a um desprezo total por aquilo que de mais próprio tem o ser humano – a faculdade de ser uma causa livre –, podemos ao menos dizer que ela, em termos sociais, terminou com as oligarquias e deu o poder ao povo? Até agora vimos que o único poder que o povo ganhou foi o de cada indivíduo poder infernizar a vida do próximo, e isto não por maldade ou mesquinharia mas em nome da própria democracia. Mas também não é difícil perceber que a democracia representativa encenada conduz a um formidável aumento do poder dos oligarcas, e o sufrágio universal não esconde o facto de que os cidadãos apenas podem votar em soluções já trabalhadas de antemão. Numa democracia directa, um único indivíduo pode ascender na hierarquia por mérito próprio, e um grupo de pessoas relativamente modestas pode se associar adquirindo algum destaque, ao mesmo tempo que nenhum grupo terá grandes meios de se impor pela força se não tiver méritos reconhecidos pelos outros. Podem-se conjecturar muitas possibilidades num regime primitivo assim, mas o mesmo não se passa com as democracias modernas. Nestas, alguém que queira atingir o poder sabe que a única solução é associar-se a um grupo que domine partidos, comunicação social, maçonaria, etc. Um Zé Ninguém até pode chegar a Presidente da República, e nada mais eloquente que o caso actual, mas não foi ele que subiu a hierarquia por mérito próprio, simplesmente foi colocado lá por poderes infinitamente acima dele. Só há duas formas de subir nesta democracia: ou pela sabujice, percebendo em cada altura onde está o poder e fazer tudo o que ele pede; ou ser um idiota completo que, por uma improvável sequência de acasos, se torne na figura ideal para as necessidades do momento.

Claro que podemos admitir que tudo se passa por evolução espontânea; que o advento da democracia diminuiu o instinto de poder do ser humano; que os poderosos abdicaram do poder de manobra nos bastidores e agora apenas querem jogar golfe e ter umas amantes de luxo. É esta a imagem que se quer dar, que os partidos são caóticos, que os grandes empresários e os banqueiros só querem saber dos seus lucros e não ligam para o país, que os intelectuais vivem isolados nas suas torres de marfim. Por isso tanto se fala de consenso, que é preciso ter uma ideia para o país, que temos de planear o futuro a longo prazo e assim por diante. Parece má demais a ideia de que o colapso de Portugal tenha sido planeado pelas suas elites – só quem acredita em teorias da conspiração pode ter semelhantes ideias, avisa o idiota que aprendeu ontem a limpar o rabo com papel higiénico –, tem que ser outra coisa porque não é isso que dizem os jornais, não é sobre isso que falam os comentadores, não é isso que escrevem os académicos. A alternativa é considerar que os nossos homens mais sábios não passam de uns cretinos e que as elites são compostas de psicopatas? Quem tente, mesmo que seja por cinco minutos, olhar para a nossa era com os olhos de qualquer homem sensato de qualquer era passada de qualquer lugar não deixará de confirmar esta última hipótese. A única coisa que nos impede de reconhecermos isto é o provincianismo temporal, que leva a tomarmos a nossa situação actual, seja qual for, como padrão de referência inquestionável, e a partir dela podemos medir tudo o resto depreciativamente.

Dito isto, resta saber se a democracia moderna é algo monstruoso por natureza. Não tenho ainda uma resposta para isto, mas pretendo investigar até ter uma resposta satisfatória. Como a democracia convive com uma série de outros factores, alguns antagónicos a ela, é difícil dizer onde está o verdadeiro problema. Contudo, podemos fazer um enquadramento prévio. A democracia moderna revelou-se fraco impedimento contra regimes totalitários, como demonstra a eleição de Hitler, e mesmo mantendo a democracia formalmente, ela mesma pode ser um regime totalitário, que é o caminho seguido por quase todas as democracias modernas. Então, ou a democracia tem ela mesma um fundo totalitário – e há algumas coisas que indiciam isto –, ou ela é irrelevante e deixa-se contaminar por todas as tendências que nela se agitam, deixando de ser um teatro onde as ideias mais conflituantes podem actuar para ser ela mesma uma personagem que renega a sua natureza.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Relatos do Inferno (2)


O DESEJO DE APOCALIPSE

Aqueles que nasceram e foram criados no último quartel do século XX, se tiverem alguma consciência histórica, terão uma sensação ambígua em relação ao seu próprio destino. Depois de duas guerras mundiais, depois do auge da guerra fria, depois do gulag e dos campos de concentração nazi, a História parecia reservar-nos uma agradável existência pacata mas ao mesmo tempo negava-nos o palco em que os mais terríveis eventos revelavam as possibilidades extremas do ser humano. O Fim da História era proclamado como uma vitória, mas apenas entusiasmava os mais tolos e hedonistas, já que condenava o ser humano à sua própria imanência e colocava as sociedades ocidentais – havendo a crença que todas as outras inevitavelmente seguiriam os seus passos – no rumo de um lento ocaso motivado pela apatia. Neste contexto, não podemos estranhar o entusiasmo provocado pelo terrorismo inaugurado pelos eventos de 11 de Setembro de 2001. Foi a natural alegria dos deserdados da farsa da queda do comunismo, que agora se sentiam vingados, assim como de muitos meninos mimados pela democracia liberal procurando novos entusiasmos no radicalismo, e foi ainda o alento de alguns patriotas, que finalmente viam um novo inimigo contra o qual podiam dar a vida lutando contra. Contudo, a luta contra e a favor do terrorismo em democracias mediáticas rapidamente se torna enfadonha e as pessoas deixaram de acreditar que o mundo tinha mudado com o 11 de Setembro, pelo que voltou-se à apatia.

Obama apareceu neste contexto de tremenda necessidade de transcendência nem que fosse pelas mais retorcidas vias. Ao salvador tudo se desculpa e todo o bem se lhe atribui. Contudo, algo de estranho se passa: se os nossos antepassados pudessem ver Obama apenas reconheceriam ali um canastrão de quinta categoria com uma grande aura de vigarista, a quem nunca comprariam um automóvel novo ou em segunda mão. Obama é a personagem mais obscura na História da humanidade, com um passado do qual nada se sabe a não ser que não é aquilo que ele diz ser, mas concedo que os meios de comunicação de massa consigam hoje, funcionando numa rede estreita, criar uma personagem totalmente fictícia. O meu espanto não está naquilo que foi possível ocultar mas naquilo que Obama é diante de toda a gente e ninguém parece ver. Perdeu a humanidade os seus instintos mais básicos e tornou-se incapaz de reconhecer os perigos mais óbvios?

Durante muito tempo achei que era assim, já que vivemos em tempos cada vez mais alienados. Contudo, percebi que a verdade era bem mais terrível e que o problema não era a perda total dos instintos naturais no ser humano. Ora, se Obama fosse realmente um vendedor de automóveis, ele seria um dos piores no mundo, ninguém confiaria nele e nem se chegariam próximo da personagem, não fosse a carteira mudar de bolsos num acto de magia. É precisamente por Obama ser isto que ele se torna o homem ideal para dirigir o país mais poderoso do mundo, porque ele tem a capacidade para destruí-lo. Claro que Obama chegou a presidente apoiado pelos inimigos dos EUA, internos e externos, mas também apoiado por uma vontade popular saturada de apatia, que aposta no cavaleiro negro (escrevi isto e logo pensei que podia ser interpretado de forma racista, mas seria cobardia voltar atrás e optar por uma alternativa politicamente correcta) porque ele revela um tremendo poder oculto. Os americanos, e o resto do mundo ocidental, por extensão, estão como Creso que decidiu atacar os persas porque o oráculo lhe garantiu que essa iniciativa levaria à destruição de um grande império, sem ter percebido que se referia ao seu. Mais propriamente, estamos com a mesma postura que Hitler, que apostava tanto no reich de mil anos como na destruição total.

Sei que esta descrição pode parecer fantasiosa a um nível extremo a um leitor desprevenido, que ainda acredita que a realidade é o conjunto de invencionices dos jornalistas e comentaristas (nem perco tempo com aqueles que têm medo da realidade, já que só lhes resta procurarem as saias da mãe). Mas temos exemplos internos deste mesmo mecanismo. A dada altura da governação de José Sócrates, acumulavam-se as suspeitas sobre as suas qualificações e esquemas de corrupção onde teria entrado. Um inquérito de opinião revelou uma estranha postura dos portugueses, daquilo que se podia inferir: havia fortes suspeitas que ele fosse mesmo corrupto mas isso em nada o impedia de ser primeiro-ministro, isto numa altura em que se falavam em grandes obras públicas, que sabemos que iriam enriquecer uns poucos bolsos. Não se trata aqui daquela complacência que os italianos tinham há umas décadas pelos seus políticos, que podiam ser corruptos mas os italianos podiam continuar enriquecendo e a normalidade continuava. Portugal estava, pelo contrário, numa situação de catástrofe iminente e José Sócrates apenas podia nos levar para o abismo, mas fê-lo com verve e os portugueses seguiram-no, como se o apocalipse fosse o castigo por terem deixado se iludir.

No auge do poder socrático, os meios de Estado foram usados para perseguir indivíduos isolados que se atreveram a contestar o primeiro-ministro onde doía, e este não se coibia de enviar mensagens públicas onde deixava entender claramente que ia usar todos os meios para esmagar quem se lhe colocasse no caminho. Um método do género usa ainda o KGB, seja qual for o nome que tem agora, quando assassina ex-agentes usando plutónio, material que não se compra na farmácia da esquina, dando assim uma mensagem de aviso clara, sabendo que os sonsos farão de conta que não viram nada. Então, quando o abuso de poder socrático já não dava para desmentir, surgiram alguns génios a explicar a lógica da situação: a democracia é mesmo assim, um partido é eleito e pode fazer tudo o que quiser, e se depois as pessoas não gostarem só têm que votar noutro partido nas próximas eleições. Não vi esta pretensão combatida de forma adequada em lado algum, e veremos que ela não é uma simples atoarda mas corresponde a uma intenção prática. Nem ditaduras e regimes totalitários defendem algo assim, apesar de o praticarem, mas fazem-no à luz de bodes expiatórios.

Esta pretensão a um poder total por parte dos titulares dos governos democráticos, ao invés de ser um dislate de alguns cretinos socráticos, é algo que nos ajuda a compreender a actuação do governo Obama em algumas áreas, que pode ser ocultada pelos jornais mas é acessível a quem consulte fontes primárias. Por um lado, Obama aumentou imenso a dívida pública, o que apressa a substituição do dólar como moeda de troca internacional, o que provocará o colapso da economia americana. Internamente, prepara-se uma guerra civil: criação de campos de concentração, desarmamento dos indivíduos e compra maciça pelo governo de munições proibidas pela Convenção de Genebra, logo, para serem usadas contra o próprio povo. O slogan de campanha de Obama, “Yes, we can” mostra-se, então, como uma profecia demoníaca, que oculta o seu sentido até ser tarde demais. Enquanto milhões de idiotas foram iludidos, dentro e fora dos EUA, para entrarem numa espécie de corrente positiva, onde podiam somar todas as ilusões, o slogan apenas dizia que “eles” poderiam fazer tudo (não há na frase um genitivo restritivo), incluindo eleger um presidente inelegível e criar uma ditadura à frente de todos sem ninguém perceber.     

Não teremos que lamentar viver numa época de apatia porque logo ela terminará. Não nos espera algo como as guerras mundiais, que depois de passadas permitiram que os países continuassem existindo mais ou menos da mesma forma. Agora, o que está em causa é a dominação do mundo, para o qual é imprescindível a destruição do ocidente tal como o conhecemos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Relatos do Inferno (1)


O ÓDIO AO PRÓXIMO

Neste fim-de-semana um homem, sem mostrar a cara, relatou num jornal televisivo a sua infeliz ocorrência na linha de Cascais. No comboio onde seguia, 4 jovens circulavam alarvemente pelas carruagens e, quando confrontados pelo revisor, disseram que não tinham bilhete, reagindo este com uma prudente ausência repentina. O nosso homem tornou-se então um alvo para os marginais e quando saiu na estação de S. Pedro foi assaltado e atirado para a linha.

Jovens criminosos como estes vivem uma situação especialmente benéfica para a suas necessidades de afirmação de poder pessoal. Num acto de magia, alguns tomam-nos como os homens bons de Rousseau, em que o mal que cometem não está neles mas em nós, que somos a sociedade corruptora. Parafraseando Brecht, quando mais criminosos são mais merecem ser inocentados. Isto materializa-se de muitas formas, na “glamourização” da violência e do crime pela indústria de ficção, na cultura musical rap e afins, na ocultação destas notícias pelos jornalistas. Há também toda uma série de grupos de pressão que inocentam estes criminosos na base da chantagem, actuando na base da defesa de causas que ninguém quer ser inimigo: anti-racismo, anti-pobreza, anti-descriminação, etc. Junta-se a isto a falta de meios da sociedade para combater as agressões, seja devido a leis e juízes facilitistas, polícias apenas armados contra cidadãos cumpridores que, por sua vez, têm que estar desarmados em todas as situações.

Toda esta situação foi montada propositadamente não propriamente para promover o crime mas, através dele, gerar um caos social e um enfraquecimento da alma humana. Nem os cretinos podem negar isto, apenas o fazem os agentes da desordem, sejam revolucionários comprometidos ou idiotas úteis. Contudo, estes agentes não se limitam a criar um clima de promoção do crime e de desresponsabilização dos criminosos. Vários deles actuam directamente sobre os criminosos, instruindo-os sobre como agir de forma destrutiva e com risco mínimo. Naturalmente que em Portugal ninguém quer se aventurar a estudar esta situação para não criar inimigos junto a grupos com algum poder (tanto de extrema-esquerda como financiados por meta-capitalistas), mas podemos inferir bastante coisas listando o conjunto de acções “inocentes” que activistas fazem em zonas problemáticas, para além dos relatos em primeira mão que podemos ter acesso. No Brasil está bastante bem documentado como os activistas de esquerda ensinaram os criminosos comuns a organizar o seu crime, e algo do género tem que se fazer por cá. Para ter uma ideia, ver:


A estratégia comunista para o continente sul-americano apostou na conquista do poder através do crime, das drogas e da teologia da libertação. Na américa do norte a aposta entrou pela via da imaginação, em especial o cinema, e também através dos intelectuais, para além de alguns sindicatos. Na Europa a aposta foi variada: sindicatos, financiamento de partidos comunistas e sociais-democratas para operar a “estratégia das tesouras”, espionagem, grupos terroristas, etc. Tudo isto está a dar os seus frutos agora na máxima intensidade, enquanto tudo o que é cretino considera que o marxismo foi enterrado definitivamente pela História, apenas porque o nome já não precisa mais ser usado.

Contudo, o relato que motivou este post não está terminado e ele ajuda a entender os efeitos sociais desta guerra cultural que actua pela via da promoção do crime. Tinha dito anteriormente que o verdadeiro objectivo não era a expansão do crime em si mas a criação de uma situação de caos propícia à tomada do poder. Se o objectivo da tomada de poder pelos revolucionários foi totalmente alcançado, este não se deu propriamente pela via do caos mas pela criação de um novo modelo aberrante de ordem. Depois do nosso homem ter sido assaltado e atirado para o meio da linha, ficou bastante mal tratado, com uma grande deslocação do ombro, tendo ainda perdido os sentidos, o que lhe daria uma morte certa com a chegada do próximo comboio. Tendo-se dado o ocorrido a meio da tarde e estando várias pessoas na estação, mesmo que não enfrentassem os criminosos, pelo menos seria de esperar que o ajudassem a sair da linha, mas não, nem sequer o alertaram para a chegada do comboio. Quem o fez foi uma senhora que assistia a cena da janela de um prédio ao lado, e o nosso homem lá despertou e conseguiu sair pelos próprios meios, apesar de estar numa situação física que os médicos consideraram depois incapacitante para tal, mas este tipo de milagres são bem conhecidos por muitos relatos de situações de grande perigo.

A situação de não querer correr perigo para ajudar o próximo já revela algo de preocupante. Como vivemos numa era de cobardes, já nem percebemos que a cobardia não é uma coisa natural como sentimento permanente, mas é algo que pode afectar qualquer pessoa em certas circunstâncias, tal como acontece com a coragem extrema. Hoje em dia o ser humano parece oscilar apenas entre a cobardia moderada e a cobardia paralisante, sendo presa fácil dos lobos bem treinados. Contudo, a situação relatada revela algo que vai além disto. Todas as pessoas que nada fizeram para salvar uma pessoa de uma morte iminente (houve depois quem ajudasse) não estavam simplesmente paralisadas, elas realmente quiseram, de alguma forma, que aquela vida terminasse.

O fenómeno é psicologicamente complexo e não se pode confundir com uma simples tentativa de homicídio. A mente humana só consegue aguentar um certo nível de absurdo, e quando este se impõe como norma social – o que acontece com esta inversão de criminoso e vítima – o absurdo vai, então, ser tomado como padrão de normalidade, obrigando a toda uma reorientação de valores e de sentimentos concomitantes. A violência e o sacrifício de um inocente constituem um ritual que convida os que o assistem a uma conversão demoníaca, como se as potenciais vítimas passassem também a ter o poder dos lobos predadores. Estava toda esta monstruosidade do cidadão comum oculta até que uma circunstância especial a revelasse? De modo algum. Basta olhar em volta e perceber como está cada vez mais presente o sentimento do ódio ao próximo, apenas interrompido pela admiração em relação aqueles que Maquiavel nos ensinou a admirar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Em Busca da Austeridade Perdida


Nos últimos anos não deve haver palavra que seja tão marcante na vida portuguesa como “austeridade”. Ouvimo-la em milhares de notícias e em inúmeros debates, e poucos são os artigos escritos sobre a actualidade onde ela não entre. Contudo, se perguntarmos a 100 pessoas sobre o que entendem por austeridade vamos ouvir 100 respostas distintas, muitas contraditórias entre si e a maioria apenas incidindo sobre uma interpretação muito particular, que apenas faz sentido para o contexto em que aquela pessoa vive. O intenso debate e a contínua informação não têm esclarecido as pessoas e é estranho que ninguém pareça se dar conta disso.

Tornou-se crença geral que a vida política é um jogo em que aquilo que se diz – seja para propor, condenar, apoiar ou até apresentado como reflexão – é apenas uma fachada que esconde as verdadeiras intenções. Em parte, isto é uma das consequências inevitáveis da democracia representativa, onde há uma exigência de abertura, porque os políticos têm que explicar as suas decisões e não devem agir em segredo, mas ao mesmo tempo o sistema tem que ser fechado já que a maioria das pessoas não conseguiria compreender todas as implicações de cada medida, por mais inócua que fosse, e isso iria paralisar o sistema. Durante algumas décadas era razoável achar que a democracia moderna funcionaria razoavelmente bem num sistema semi-aberto, onde a comunicação social e os comentadores independentes serviriam de intermediário entre os políticos e o povo, tendo o papel de fornecer a informação relevante e dando a conhecer as consequências mais importantes de cada decisão assim como as de cada omissão grave, mas poupando o público de detalhes irrelevantes. O que vimos foi precisamente o oposto. Estes intermediários são antes um tampão entre o povo e os políticos, não são independentes e ao invés de salientarem o que é importante limitam-se a discutir irrelevâncias.

Com o progresso da guerra cultural, a abertura na democracia tornou-se a brecha por onde entraram todos os demónios. Não foi difícil aos planificadores sociais perceber que já não precisavam de regimes abertamente totalitários para implementar os seus planos, ainda como que cobaias longínquas, se soubessem usar os mecanismos de abertura e de ocultação das modernas democracias. Hoje controlam a quase totalidade dos meios de comunicação social e, mais importante, a linguagem corrente. Se analisarmos a evolução do uso de palavras como “democracia” ou “liberdade” vemos que elas foram esvaziadas de conteúdo ao ponto de serem usadas para fins opostos aos que tinham há umas décadas atrás, funcionando apenas como catalisadores emocionais. A “arte política” tornou-se, então, numa forma de usar certas palavras ou expressões como pólos agregadores, onde vontades desavindas se juntam numa emoção mais ou menos homogénea, que irá depois domar o pensamento para que este entre num ciclo psicótico e, no final, aquele que pensa é apenas um veículo inerme de ideias alheias.

Isto traz-nos de volta à questão da austeridade. É loucura achar que se podem discutir seriamente questões como “deve haver austeridade?” ou “mais ou menos austeridade?” sem termos antes avaliado os próprios efeitos psicológicos que a palavra “austeridade” tem sobre nós. Quando pensamos em austeridade, temos uma ideia clara sobre o que se trata ou há em nós apenas uma confusão de ideias dispersas e contraditórias unificadas por uma certa emoção? A questão não é tão fácil de responder como parece. O segundo caso parece descrever um estado de indigência mental próprio dos mentecaptos e poucos se reconhecerão nesta descrição. São estados próximos da loucura, e esta assemelha-se a um sonho isolado, ao passo que a maior parte das pessoas que se indigna com a austeridade sabe que não está isolada mas faz parte da maioria. Contudo, este colectivo é apenas uma ilusão criada pelos meios de comunicação de massas, dado que as pessoas estão mais que nunca isoladas nos seus sonhos. Já ninguém toma por genuíno o que os seus olhos vêm mas aquilo que o colectivo confirma, mesmo que este colectivo não seja real mas uma abstracção criada pelos jornais.

Mas que interesse têm os actores políticos nesta alienação política e de que forma lhes convém que a “austeridade” apareça como algo difuso, essencialmente ligado a uma emoção? No caso da oposição, é fácil perceber esta vontade. Austeridade tem que ser algo imediatamente associado a sofrimento, privação, injustiça social e assim por diante. Depois de feita esta colagem, pode-se discutir a austeridade porque esta será sempre um símbolo para estas coisas e não será vista como aquilo que é, e assim a oposição poderá fazer a sua apologia de gastos desenfreados sabendo que nunca será responsabilizada por nada. Da parte do governo poderia parecer que havia um interesse em optar por um caminho inverso, onde se começaria por esclarecer, da forma mais racional e objectiva, a situação do país, mostrar que vivemos acima das nossas possibilidades, como estamos à beira da bancarrota e, logo, que é imperativo uma contracção em vários sectores, a que podemos denominar por “austeridade”, e daqui podia resultar uma associação emocional bem mais racional, ligada ao orgulho de fazer o que é certo, à vontade, à coragem, etc. De início, o próprio primeiro-ministro Passos Coelho deu a entender que queria optar por este caminho, mas rapidamente mudou de rumo e optou por uma versão encantatória do uso da “austeridade”. De um certo ponto de vista, isto parece um suicídio político, porque se trata de fazer o jogo da oposição, ao mesmo tempo que se demite das responsabilidades para com o país. Qual o interesse do governo nisto?

A minha ideia é que se trata de um interesse pragmático, que é também uma forma encapotada de abandonar todos os princípios. Para entender isto temos que entrar um pouco dentro da própria governação. Não é difícil de perceber o que deve ser essa tal de austeridade e por onde se deve cortar. Contudo, o governo rapidamente chegou à conclusão que não podia cortar onde devia, se é que alguma vez teve essa intenção, porque isso iria mexer com gente poderosa e com uma constituição socialista. Então, só restava ir ao sítio do costume e sobrecarregar a classe média de impostos. Mas isto não é austeridade, é saque fiscal, para a qual aconselho a seguinte leitura que faz um enquadramento mais vasto:



Cinicamente, quando o governo desistiu da verdadeira austeridade – calculo que tenha sido logo nas primeiras semanas de governação, bem antes do primeiro (?) chumbo do Tribunal Constitucional – foi precisamente quando aderiram à retórica da “austeridade”. Nada tem isto de contraditório, porque a retórica da “austeridade” significa esvaziar a palavra de conteúdo para poder usá-la em sentido inverso do que devia ter. Ou seja, a verdadeira austeridade seriam cortes na função pública, nos institutos, nas PPP e assim por diante, mas agora o governo pode esquecer tudo isto e aumentar impostos dizendo que é em nome da austeridade. Trata-se de uma manobra de grande cinismo e um embuste tão grande ou maior do que aquele que faz a oposição. Nada disto me espanta nos políticos, mas ainda fico surpreendido por não ver ninguém a descrever estas coisas.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Programa ideal de governação (14)


O programa ideal de governação é na verdade uma decepção para todos aqueles que, por falta de imaginação, necessitem de uma inspiração para elaborar um projecto de conquista de poder dentro dos moldes de funcionamento do actual sistema. Este programa foi aqui idealizado não como o fazem os revolucionários, que se dão ao luxo de poder sonhar com todo o tipo de perfeições inalcançáveis, mas em função das potencialidades reais dos portugueses, estimadas não a partir de desejos pessoais mas das realizações históricas, assim como do estado presente – moral, anímico, intelectual – do país e da conjectura onde se insere. É também recriando esse contexto que o programa deve ser lido e descompactado.

Penso que não preciso perder explicando que o programa não tem uma estruturação sectorial mas segue uma organização mais pedagógica, começando por medidas específicas e de limpeza ética, subindo no nível de abstracção até chegar a medidas mais simbólicas e estruturantes. Naturalmente que muitas outras medidas podiam ser acrescentadas ou tomar o lugar de algumas das que foram propostas. Há também outras medidas circunstanciais que foram omitidas dado se tratarem mais de questões elementares de higiene intelectual e moral, como a proibição do aborto e o aborto do acordo ortográfico.

À primeira vista, o programa pode ser dito “ideal” porque propõe um conjunto demasiado grande de medidas difíceis de aplicar. Numa situação de normalidade democrática – o que hoje em dia estou inclinado a achar que se trata de algo intrinsecamente absurdo – um programa de governação devia ser muito diferente, tendo apenas umas poucas medidas de fundo e tentando melhorar as restantes áreas sem fazer alterações significativas. Na situação actual, contudo, qualquer medida de fundo será imediatamente engolida pelo sistema e mesmo as tímidas tentativas de melhorar – ou até de manter o nível dos vários sectores – encontram múltiplos empecilhos. Isto quer dizer não apenas que o sistema não tem concerto mas que ele é auto-destrutivo, considerando eu que estamos já a viver em plena evidência disso. Então, resta apenas substituir este sistema por outro totalmente diverso – isto se ainda quisermos ser senhores do nosso destino e não estar sob domínio completo de alguma força externa que tome o nosso território –, e daí a necessidade de um conjunto alargado de medidas de fundo assim como de medidas emblemáticas que não permitam a proliferação de ervas daninhas.

Esta substituição total do sistema pode, em teoria, ser feita de duas formas, sendo uma rápida e assumida (no momento de colocar em prática, entenda-se) e outra lenta e imperceptível. A forma rápida necessita de um exército real (nas suas várias vertentes, incluindo a intelectual e espiritual) já reunido e com fidelidade à hierarquia. É muito difícil saber se ainda existe massa crítica em Portugal para fazer tal coisa, mas mesmo as pessoas que são válidas precisam de ser sensibilizadas para isso, e daí este meu modesto esforço. A estratégia lenta e imperceptível é um acto de guerra cultural que emula aquilo que os revolucionários fizeram com sucesso, obtendo uma hegemonia quase completa em todos os lugares com alguma relevância política ou social. É algo que só terá efeito daqui a 30 ou 40 anos e começa, antes de tudo, por um assumir da posição inicial de derrota em toda a linha. A conquista de espaços é feita palmo a palmo, silenciosamente, e quando se adquire poder suficiente impede-se a entrada dos adversários, dado que estes também utilizam o jogo democrático apenas como fachada para eliminar os seus adversários. Dada a lentidão da estratégia, há o risco de não haver tempo de impedir o fim de Portugal.

Pode-se, é claro, tentar combinar de alguma forma as duas estratégias, mas a articulação é problemática, embora deva ser pensada. Há ainda que contar com a alteração de factores que possa alterar o quadro geral. Em termos puramente internos, penso que não há que contar com «consequências inevitáveis» da continuada degradação do sistema político: hoje em dia temos em altas funções psicopatas, pedófilos, partidários do genocídio e assim por diante. Nada disto faz com que o sistema quebre por dentro – num certo sentido até se fortalece porque à partida exclui pessoas integras que o podiam colocar em causa –, nem que as pessoas se insurjam, já que estas sem uma voz que as unifique são obrigadas, devido a um mecanismo de protecção psicológica bem conhecido, a tomar o monstruoso como modelo de normalidade. Resta apenas, creio, que nos sejam enviados homens providenciais, mas para será que a Providência ainda nos acha dignos de recebermos tal dádiva?

Em termos externos, as perspectivas em cima da mesa também não são nada animadoras. Em termos europeus, há o risco do fim do Euro e do fim da União Europeia, coisas em si positivas mas devastadoras para Portugal se não começarmos desde já a pensar fora deste paradigma. Caso a União Europeia se mantenha, o nosso declínio continuado ditará o nosso fim como entidade soberana, pelo que seremos integrados no velho continente como uma mera província sem alma. A provável implosão europeia dará uma abertura para a reconquista muçulmana, cujas facções mais radicais estão neste momento a ser fortalecidas pelas elites ocidentais. Mas o perigo de maior monta vem do bloco russo-chinês cujo conjunto de acções (espionagem política e industrial, política de armamento maciço, guerra económica/financeira/cibernética, promoção da destabilização política no médio oriente, Magrebe, Irão, Coreias, etc.), apesar de ignorados pelos meios de comunicação de massas, revela apenas um processo já em curso de conquista global, com a agravante de tudo isto fazer parte explícita da ideologia eurasiana. Em relação a qualquer uma das ameaças, as melhores hipóteses de Portugal ditam sempre que nos destaquemos como unidade política autónoma, naturalmente com o máximo de auto-suficiência e com boas ligações estratégicas, nomeadamente aos países lusófonos. Estando os EUA entregues na mão de traidores, a longo prazo tenho as maiores reservas em considerar algum tipo de aliança com esta parte do Atlântico, que facilmente nos entregaria na mão do urso ou nas garras do dragão, mas tudo vai depender de como e se os americanos conseguirem entender a distopia onde se meteram e de como devem se livrar dos traidores.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Programa ideal de governação (13)


19. Extinção da República e restauração da Monarquia – Este último ponto pode dar a entender que, no fundo, todo o programa é apenas uma defesa da restauração da monarquia. Caso assim fosse, estaria a prestar um mau serviço à causa monárquica dado que não me debrucei o suficiente sobre o assunto, pelo que deixo a tarefa aos que estão capacitados para tal. Faço aqui a defesa da monarquia à luz deste programa ideal de governação, sem com isto pretender esgotar o assunto ou achar que estou mostrando os melhores argumentos que existem em defesa da causa real. Contudo, penso que algumas das observações que aqui deixo podem ser úteis aos próprios monárquicos.

Confesso que inicialmente a minha proposta seria a de dar a escolher entre a monarquia e república, mas depois percebi que o programa se tornava inviável em república. A república em Portugal não apenas começou de forma deplorável como teve sempre um funcionamento caótico, tendo tido apenas alguma estabilidade durante o período do Estado Novo, a que os republicanos não se querem associar, mas foi o melhor que conseguiram. Sendo este republicanos revolucionários, nunca irão querer estar plenamente associados a algum regime que tenha existido mas apenas a um movimento em direcção ao futuro, onde podem colocar todas as esperanças. Se analisarmos todos os argumentos de republicanos, socialistas ou liberais percebemos sempre este fundo latente, de quem nunca assume responsabilidades por falhas passadas mas coloca esperanças desmedidas no futuro que justificam quaisquer monstruosidades de percurso. Dessa forma, é fácil a um republicano, por exemplo, comparar o seu modelo ideal de república com uma imagem concreta da monarquia escolhida a dedo, nomeadamente de um período de decadência desta.

Assina-lo também que a questão da escolha entre monarquia e república está viciada dado basear-se numa comparação entre alternativas que não se colocam no mesmo plano a não ser de um ponto de vista estritamente formal. A república aparentemente baseia-se na liberdade de escolha, dado que o chefe de Estado pode ser qualquer um em teoria, mas na verdade não admite alternativa a si mesma, tendo-se imposto pela força sangrenta. Ela nunca se coloca a si mesma como uma alternativa entre várias outras mas antes assume-se como uma inevitabilidade histórica e, por isso, indiscutível. A monarquia parece, por outro lado, não dar poder de escolha (falando em termos de monarquias mais usuais), já que o rei é deliberado por via hereditária, mas na prática baseia-se num escrutínio diário da relação de confiança entre o soberano e os súbditos. Isto significa que a monarquia se coloca a si mesma em escolha e em risco de forma permanente. Ao invés da diferença essencial entre monarquia e república estar centrada na forma de escolha do chefe máximo do Estado, ela centra-se realmente na forma como os cidadãos acedem ao soberano simbolicamente e até materialmente.

A própria noção de soberano em república é mera figura de linguagem, já que se ele fosse mesmo soberano não tinha necessidade de se fazer eleger. Para se eleger tem que se corromper perante o público, prometer o que não vai cumprir, tanto que, logo que eleito, se afasta desse mesmo público para não ter que lhe prestar contas, voltando a ele apenas em encenações mediáticas que o isolam verdadeiramente das pessoas de carne e osso. Em parte, isto tenta emular a figura pública do rei, mas o fenómeno é bem diferente. O rei não simula distância e altivez para se livrar do escrutínio público, pelo contrário, ele coloca-se em escrutínio evidenciando a solidão do cargo que tem e das responsabilidades a que não se pode furtar. Ele não tem que se rebaixar para conseguir votos, antes é o exemplo supremo que inspira todos os que estão à sua volta. O que torna o rei uma peça fundamental neste programa é precisamente este movimento ascensional e de congregação que ele provoca, necessário para a confluência de energias e para ligar uma série de medidas que, de outra forma, teriam paternidades múltiplas e iriam anular-se umas às outras na tentativa individual de concretização.

Mas o conceito de primus inter pares não diz respeito apenas às possíveis origens da monarquia, mostra também a necessidade do rei ter próximo de si uma elite muito capaz, ao ponto até de, no caso de fim de uma dinastia, poder fazer surgir um novo rei de outra linhagem. Eric Voegelin não acreditava que a crise ocidental se pudesse restaurar fazendo uma reforma das instituições políticas e sociais, dado que a crise da modernidade é uma crise espiritual – um afastamento da fonte divina da ordem. Também não acreditava que a maioria teria forças para lutar contra a pressão desordenadora da sociedade moderna, apenas uma elite o poderia fazer. Para ele, o restauro da ordem seria uma tarefa de carácter filosófico, embora ele não desligasse isso da própria restauração do cristianismo. Serve isto para dizer que um rei precisa de um exército a seu comando, que terá evidentemente uma vertente militar, mas também uma componente espiritual e outra intelectual.

Efectivamente, para cumprir este programa que aqui delineei é necessário um exército apto a combater em diversas frentes. Há muita gente que simplesmente deve ser corrida a pontapés dada a sua nulidade, muitos outros terão que ir para a cadeia pagar pelos seus crimes. Mas se a sociedade não for purificada, logo surgirão outros para tomar lugar destes e nada de importante será alterado. A figura do rei é fundamental porque ele já é o símbolo daquilo para onde o país deve caminhar, e sem isto ou caímos no niilismo ou na vertigem revolucionária. Só de forma muito esquemática este exército real emula a antiga corte do rei. As funções essenciais têm que se manter sempre de alguma forma, mas isso não implica uma tentativa de copiar exactamente os modelos que existiram historicamente. Por exemplo, o clero da antiga corte era ao mesmo tempo um poder intelectual e espiritual (em termos sociais, estes poderes são realmente apenas um, que tem como finalidade primordial a delineação do campo de actuação das pessoas, grupos e instituições). A separação das funções não deve ser um dogma, mas existem tarefas específicas que cabem a cada parte, e a própria elaboração deste programa cai dentro do âmbito mais estritamente intelectual. Por outro lado, o restauro de uma classe guerreira, e não apenas de um exército regular, é uma necessidade mas algo que não é fácil de obter, mas acredito que temos em nós ainda o germe necessário para tal. O povo nunca será um problema desde que deixe de ser tratado como populaça e lhe sejam dados os meios de puder viver no seio de verdadeiras famílias.

A burguesia pode ser um problema. Ela teve um movimento de ascenção obtido à custa de um declínio de quase todos os outros “pares” do reino. Há que dar um lugar ao capital que corresponda à sua verdadeira importância para o funcionamento da sociedade Os comunistas sempre souberam que os capitalistas partidários do movimento deviam se submeter aos intelectuais. Os capitalistas que se queiram juntar ao exército real têm que perceber que os seus milhões não lhes dão o direito a ter uma opinião que mereça ser ouvida, antes estão lá para seguir o rei e a sua elite espiritual e intelectual. Mas hoje qualquer ricaço acha-se um iluminado e começa a agir como se fosse um reizinho, o que inevitavelmente atrai uma corte de oportunistas que o irão manobrar.

O último post, onde se defendia o fim dos partidos e do sistema parlamentar, ficou incompleto porque necessitava deste aporte da restauração da monarquia. Se o parlamento é o órgão máximo de soberania, e se este tem como base as clivagens entre partidos, logo torna-se num elemento desordenador da sociedade (em grande parte, isso acontece pela produção incontrolada de legislação). A monarquia parlamentar obviamente que não pode resolver o problema, porque o rei já não é aí soberano e o seu papel de mediação não só é ineficaz como fará com que as falhas do parlamentarismo sejam imputadas à própria monarquia. Então, a monarquia deve rejeitar o parlamentarismo, sem achar que isso é cair no “antigo regime” absolutista. O absolutismo não é de todo parte da antiguidade, é antes um dos pontos cardeais da modernidade revolucionária. Portugal nunca conheceu verdadeiramente este regime e é significativo que o único “monarca” absoluto não tenha sido verdadeiramente um rei, estando obviamente a referir-me ao marquês de Pombal.

A reformulação do sistema político é aqui vista como um bloco, englobando o fim do parlamentarismo e da república – num quadro também delimitado pelas outras medidas do programa –, colocando no seu lugar uma monarquia com novos pares do reino, que podem ser eleitos, advindos por inerência ou designados pelo rei. Cabe ao próprio rei, auxiliado pela sua elite, designar a exacta configuração do Estado e como ela deverá evoluir no tempo. No seio de amplas transformações, como aqui preconizo, inúmeros factores novos iriam surgir e que agora são imponderáveis, pelo que tem pouco sentido tentar prescrever um programa demasiado minucioso, o que por si só também consistiria numa tentativa de diminuir a soberania real.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Programa ideal de governação (12)


18. Fim do sistema parlamentar e extinção de todos os partidos – Os sistemas parlamentares estão em crise em todo o mundo e em Portugal nem sequer podemos apontar um único período em que algum parlamento eleito tenha tido algum brilho. É um eufemismo dizer que a democracia dos partidos é representativa, porque os partidos apenas se representam a si mesmos e aos seus interesses, que não têm que ser exclusivamente materiais. Uma democracia realmente representativa é aquela em que os representantes não só estão mais próximos das pessoas mas também, ao invés de as representarem em abstracto, fazem a sua defesa nas diversas formas de participação social que elas têm (contribuinte, profissão, classe social, família, etc.). É uma ilusão achar que os partidos estão em crise e, por isso, irão se dissolver por si mesmos, porque muito antes disso já eles terão destruído o país. Não se trata de desenhar um novo modelo de Estado a régua e esquadro mas reconhecer a estrutura da própria sociedade e fazê-la reflectir os vários grupos em disputa e as necessidades de representação realmente existentes e a que níveis devem estar colocadas.

A partir destes princípios pode ser desenvolvido um enorme volume de trabalho teórico e prático, partindo do princípio que a lógica dos partidos seja abolida. Para participar na polis de hoje, qualquer pessoa tem, em primeiro lugar, que se filiar num partido, o que significa, desde logo, partilhar um número mínimo de crenças e práticas, implicando isto também certos deveres de fidelidade, caso contrário o partido não permitirá que o indivíduo suba internamente até chegar a ser um dos elegíveis para cargos internos e externos. Isto quer dizer que o sistema atrai, desde logo, pessoas com mentalidade sectária ou cínicos que não se importam de vender a alma se isso lhes der algum tipo de vantagem. Então, a própria existência de partidos tem uma dupla limitação: por um lado, tende a escolher pessoas de personalidade pouco respeitável; de outra parte, aqueles que são eleitos pelos partidos, quando em funções, têm sempre que responder àquilo que a estratégia global dita, o que frequentemente entra em contradição com os deveres que a sua função obrigaria.

Os partidos não têm que ser necessariamente antros de podridão, mas a experiência mostra que aqueles que são mais sérios tendem a ter uma expressão eleitoral residual, e que os mais bem-sucedidos são os que não olham a meios para atingir os fins. Esta lógica degenerada do sucesso tem a ver com a psicologia daquilo que é um partido: este é assumidamente uma facção, uma hipérbole do discurso retórico. Sempre haverão estas facções, mas quando elas se tornam em instituições organizadas, vão cristalizar posições que deviam ser efémeras e de âmbito limitado e tentar ditá-las para toda a sociedade e sem admitir possibilidade de retorno. Isto é intrinsecamente absurdo, e para o partido sobreviver só resta apresentar os outros partidos com as imagens mais odiosas e repulsivas. O parlamento torna-se, então, num teatro de ódios, que em grande parte é um fingimento, dado que os vários actores estão bem confortáveis e partilham das mesmas opiniões de fundo, mas a sociedade reage polarizando-se entre falsas alternativas e apenas entende uma retórica de ruptura e de confronto, que validam a actuação política apesar do desprezo pelo conteúdo. Neste contexto vão ser eleitos aqueles que melhor encarnam esse vazio substancial mas que tenham uma pose condizente com encenação do conflito, e por isso se explica que sejam eleitas tantas figuras patéticas para os mais altos postos, que exibem comportamentos que oscilam entre a vitimização infantil, a acusação injusta aos adversários (ou justa mas de erros que o próprio cultiva) e a pose messiânica.

Claro que o discurso político não pode ter um conteúdo puramente opositivo, ou não haveria qualquer proposta positiva, mas quando se fica por aí todos vão achar que não tem chama, porque falta aquela pimenta do confronto; falta a divisão entre nós, os bons, e eles, os pérfidos. Toda a gente critica a baixaria da política mas todos esperam ansiosamente por ela, que as farpas sejam lançadas e que espumem de raiva os inimigos, quase sempre imaginários. Mas é tudo uma farsa porque não há verdadeiro confronto. Muitos comentam, com desilusão, que os políticos atacam-se com violência no parlamento ou frente às câmaras de televisão, mas nos bastidores são todos amigos. Isto é como querer que os actores que representam Otelo e Iago sejam igualmente inimigos na vida real.

Temos ainda de entender o parlamento em sentido lato, já que grande parte da actividade política foi transferida para jornais, rádios e, sobretudo, para a televisão. É neste meio que jogam os partidos, é onde apostam as suas cartas e é também para isto que fazem as suas encenações no próprio parlamento, na esperança de que as televisões sejam benévolas ao exibir uns segundos dos seus momentos mais acutilantes. Então, o sistema partidário é uma enorme encenação mediática, onde se exibe um confronto quase sempre entre falsas alternativas. Contudo, isto cria uma polarização na sociedade, que não é um saudável confronto entre ideias realmente distintas mas um falso antagonismo que faz os homens desconfiarem uns dos outros. Chega a ser patético que num país em que só existem, com peso eleitoral e social, partidos socialistas, a ideia geral é a da existência de profundas clivagens ideológicas e de posições irreconciliáveis. Da mesma forma, na União Soviética e na China maoista bastavam desvios insignificantes de opinião – ou meramente inventados – para desencadear infindas sessões de torturas e matanças desenfreadas. As coisas tomam este rumo, com mais ou menos violência, sempre que se tenta implementar um sistema intrinsecamente absurdo, já que ele imediatamente entra em colapso e é necessário encontrar culpados, e então começa a loucura de tentar encontrar perigosos desvios dentro de uma homogeneidade quase absoluta.

Pode parecer-nos estranho hoje viver numa sociedade sem partidos e sem que isso signifique estarmos em ditaduras. Estamos habituados a ter os partidos como intérpretes da vida política, cujo âmbito se alarga de dia a dia, e não percebemos que isso não é uma situação normal da História humana e que é uma grande limitação da própria liberdade, bastando pensar como as dimensões significativas de participação social ficam enormemente reduzidas ao nível do apoio de alguma facção, e a isso de denomina ironicamente como a conquista da cidadania. É necessário entender que não é possível querer que os políticos façam algo pelo país se os colocamos num sistema que tem, por princípio, a própria divisão do país em facções de costas voltadas. Salienta-se a falta de um elemento unificador, que não existe para abolir os conflitos internos mas para garantir que eles não destruam a sociedade.