sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sinais dos tempos

Os jovens que andam de calças descaídas talvez não saibam que este “hábito” começou por ser uma forma de os presidiários norte-americanos sinalizarem a sua disposição para serem sodomizados, naturalmente com aquela delicadeza que caracteriza os homens encarcerados. Mas mesmo sem conhecer esta origem pré-histórica (para os jovens, tudo aquilo que aconteceu há mais de seis meses é colocado numa origem mítica dos tempos, do qual pouco se sabe e pouco se deve saber, devido ao risco de ostracização), qualquer um percebe intuitivamente que esta “moda” tem algo de submisso, não é apenas um pormenor estético. O sujeito de calças descaídas tem de andar de forma específica, o que limita os seus movimentos e a capacidade defensiva, além de não poder ter a coluna direita nem a cabeça verdadeiramente erguida. Fisicamente e psicologicamente, ele coloca-se numa posição de inferioridade, como o lobo que mete o rabo entre as pernas para suscitar a condescendência do macho alfa.
Podemos questionar o que fez a escola e a indústria da ilusão para levar os jovens naturalmente a uma postura derrotista e humilhante. Contudo, antes disso, penso que deviam ser procuradas causas mais “próximas”. Os nossos jovens não teriam aderido tão facilmente à postura das calças descaída se não vissem o exemplo dos seus pais constantemente com as calças arreadas, falando em termos metafóricos. Começa logo por, na maior parte dos lares, serem as mulheres a “vestir as calças”, enquanto os homens se tornam cada vez mais presenças amorfas e indefinidas. A luta moderna contra o “sexismo” acabou por criar diferenças de género de uma dimensão nunca vista, ainda para mais sem qualquer relação com as inclinações naturais das pessoas. Já não há uma descoberta do que é ser mulher e ser homem, apenas a aquisição de um papel social ditado pelo politicamente correcto, que não é apenas estúpido mas também infinitamente variável, colocando as pessoas sempre numa instabilidade que as deixa medrosas e, assim, mais dependentes do politicamente correcto.

Por outro lado, os jovens também se acostumaram a ver os pais “de quatro” em muitas outras situações. Falam mal do governo mas têm uma subserviência canina ante tudo o que o Estado pede. Os jovens habituaram-se a ver os pais desde sempre a baixar as calças para os patrões abusadores, para os vizinhos desrespeitosos, para os condutores desvairados, para os consumidores trogloditas nos supermercados e assim por diante. A educação caseira passa a mensagem de que o fundamental é a adaptação às situações, e que essa adaptação se faz sempre cedendo, mesmo se tivermos de abdicar de coisas importantes. Paradoxalmente, o jovem chega à adolescência com desejo de rebeldia mas a sua forma natural de pensar e agir é o conformismo mais rasteiro. Podemos perguntar que tipo de adulto sairá daqui, e a resta é simples: ele não chegará a adulto.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Political ideology choice for dummies

Caro mancebo político,


Se ainda não escolheste uma ideologia política para o resto da vida – a idade ideal para isso acontecer é aos 17 anos –, dá-te por felizardo porque encontrarás aqui um pequeno manual que irá dar-te todas as indicações nesse sentido.


1. Quem és tu?

Como todas as pessoas de tenra idade, inevitavelmente és um idiota. Mas isto não é grave desde que os outros não percebam. Isto pode não te parecer uma grande instrução, mas o que quero dizer é que não deves tentar dar um passo maior que a perna e, sobretudo, nunca teves tentar descobrir algo por ti mas sempre seguir algo já pronto.



2. Como funciona o mundo?

A realidade social e política é completamente arbitrária, não há soluções melhores ou piores, tudo é igualmente defensável ou condenável. Talvez isto não seja bem assim, mas seria necessário muito tempo e seriedade para descobrires a verdade, pelo que não vale a pena. Além disso, irás perceber que a ignorância em relação aos aspectos fundamentais da vida e da sociedade é muito importante para tomar decisões rápidas e sem problemas de consciência.



3. Que ideologia devo escolher?

Deves escolher a ideologia que responda de forma mais rápida às tuas frustrações e que te permita sempre culpar algum inimigo. Sugiro algum tipo de socialismo: (1) marxismo, caso sejas um jovem de voz grossa e não te importes de colar cartazes e trabalhar na Festa do Avante; (2) socialismo fabiano, caso tenhas uma voz efeminada e uma pele delicada; (3) marxismo cultural, caso queiras comer gajas fáceis e fazer uns “riscos” de graça.



4. Como defender a tua ideologia?

Deves começar por justificar a tua escolha ideológica para ti mesmo: “a minha ideologia está certa porque eu sinto que sim”. Sempre que comeces a ter dúvidas, deves parar, respirar fundo e pensar em alguma figura ou classe social em relação à qual tenhas muito ódio, e assim as dúvidas irão se desvanecer. Os teus argumentos devem ser escolhidos de forma a sentires que és melhor do que as pessoas comuns e que entendes coisas que elas não podem entender. Tudo isto pode ser facilmente absorvido em grupo, além de que uma ideologia é tanto melhor defendida quanto maior o número de pessoas que conseguem gritar em conjunto a seu favor. Concentra-te no som e nas vibrações que as palavras de ordem te provocam. Quando falares para leigos, nunca te preocupes em dar grandes justificações, porque se trata de um público que ainda não viu a luz, e está ali apenas para observar a tua demonstração de força e superioridade.



5. Como tratar os adversários ideológicos?

O mais importante é saber que qualquer adversário ideológico é infinitamente perverso e está imediatamente excluído da espécie humana. Nunca deves cair no erro de entrar numa troca de argumentos. Logo para começar, deves acusar o teu adversário de alguma coisa para o colocar na defensiva. Deves acreditar firmemente que os teus adversários são realmente culpados de todas as tuas acusações (racismo, imperialismo, pedofilia, traição, etc.), e se isso não for aparente, ainda acrescentas que eles são dissimulados. Caso tenham eles a audácia de te acusar, deves vitimizar-te e dizer que eles não têm uma postura digna.



6. Como lidar com crises de meia-idade?

Se chegares aos 22 anos e tiveres uma crise de meia-idade, ou porque desgostaste da tua ideologia ou porque foste expulso do grupo, deve então fazer uma troca. Podes mudar do marximo para o fabianismo ou algo assim. Outra escolha altamente recomendável é o liberalismo, caso tenhas tendência para racionalizações e um igual ódio à realidade.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A sabedoria dos tolos letrados

Os conselhos de sabedoria que se encontram nas revistas cor-de-rosa e nos programas de televisão familiares são uma boa fonte para perceber para onde está apontando, em cada momento, a engenharia social. Claro que os “sábios” não precisam de estar conscientes da globalidade do processo, basta-lhes captar o “espírito do tempo”, depois fecham-se nas suas conchas meditativas e finalmente parem algumas pérolas de sabedoria. Chamou-me a atenção um artigo com 20 conselhos de sabedoria dirigido a um público pré-universitário, dado o alvo ser tão específico e, de certa forma, relevante. Os conselhos podem parecer banais a uns, preciosos a outros, mas tentarei mostrar que são formas de imbecilização subtis.


Irei citando o artigo e fazendo alguns comentários. O trabalho vai ser longo mas, de certa forma, divertido.

 


1.Mantenha o contacto com os amigos verdadeiros
É fácil perder o pé nos próximos tempos, ofuscado com a quantidade de pessoas novas que vão entrar na sua vida e a animação constante que se avizinha. Mas não se esqueça de continuar a falar com os seus melhores amigos de sempre, porque esses você sabe que estarão sempre ao seu lado, já o mesmo não pode dizer (para já) das pessoas que vai conhecer daqui em diante.

 

 

Está aqui implícita uma concepção de amizade puramente animal, de rebanho, de puro conforto. Claro que uma ovelha não deve se sentir confortável no seio de uma alcateia de lobos, mas se o público alvo são futuros universitários, eles deveriam ter como objectivo um alargamento do horizonte de consciência, pelo que a amizade verdadeira só pode ser encontrada entre aqueles que partilham a mesma comunidade de valores e de repúdios. E aqui as notícias não são boas para aqueles que buscam a verdade. Por um lado, pode ser benéfico manter contacto com os anteriores amigos, mas muitos deles não vão conseguir acompanhar os novos interesses, pelo que a verdadeira intimidade está vedada. Por outro lado, os novos colegas universitários, mesmo que tenham uma cultura mais vasta, em geral mostram uma consistência existencial muito reduzida. É fácil encontrar companheiros de aventuras imbecis, mas para quem almeja algo mais profundo o melhor é se preparar para uma longa e penosa busca de verdadeiras amizades.


 

2.Apesar de ser inteligente, o seu cérebro ainda está em formação. Escute os seus pais, mais do que eventualmente gostaria 
Só aos 23 anos o seu cérebro consegue estabelecer todas as ligações que o tornam realmente 'adulto'. Até lá (e também depois disso...) continue a escutar os conselhos e os alertas dos seus pais. Eles são (na maioria dos casos) mais fiáveis do que as suas ideias.
 
Aparentemente, temos aqui uma proposta sensata, que tenta refrear a arrogância juvenil. Contudo, nada imbeciliza mais do que a incorporação de factos “cientifóides”, que tentam esmagar o entendimento com o peso do rigor científico. Alguém que tenha superado os 23 anos sentiu, atingida essa idade, um “clique”, que, num repente, ficou mais adulto? E os inúmeros reis que começaram a reinar aos 16 anos e tiveram desempenhos exemplares foram informados disto? Bem mais relevante do que o desenvolvimento neuronal é a própria complexidade do mundo moderno, repleto de sinais contraditórios. Um jovem universitário não pode ter um grande nível de maturidade simplesmente porque não teve tempo de: (1) conhecer o contexto onde se vai inserir; (2) saber o que se espera dele; (3) saber como evitar falsos caminhos e assim por diante. Mas tudo isto são elementos externos, que podem facilitar ou dificultar a maturidade, mas não levam em conta um elemento interno fundamental, que é a própria vontade. O indivíduo só se torna maduro se quiser, e hoje muitos não querem amadurecer e depois acabam mesmo por não o conseguir.

A ideia de ouvir os pais é muito menos razoável do que parece. Os pais têm que ser respeitados mas o adolescente necessita de seguir o seu próprio caminho, cometer livremente os seus erros, e se continuar “ouvindo os pais” isso vai metê-lo numa busca de afeição que o poderá infantilizar para o resto da vida. Só bastante mais tarde, depois de conhecido o mundo e obtida uma grande dose de auto-confiança, volta a ser altura de ouvir os pais. Isto não significa que o jovem deva entrar em conflito com os pais, mas apenas que deve procurar o próprio espaço, porque o radicalismo juvenil é quase sempre a submissão canina a um novo grupo de referência, o que não constitui uma verdadeira abertura ao mundo.



3.Aproveite o momento
Mais do que em qualquer outra fase da sua vida, esta é a altura em que está mais concentrado no seu futuro. Mas vá com calma. Isso é bom para se agarrar aos estudos e dar o seu máximo, mas não deixe de viver por causa disso. Saber gozar cada momento é uma capacidade que vai perdendo à medida que os anos passam. Aproveite-a agora!

Quanta estupidez se pode verter numas poucas linhas! Realmente, são bem poucos os jovens ambiciosos que se concentram no futuro, e para o fazerem atém necessitam de algum treino específico. A maior parte dos jovens esforçados, na verdade, ou está em busca de aprovação dos pais ou professores, ou então tenta provar a sua força. Por outro lado, aproveitar o momento e concentrar-se no futuro não são escolhas antagónicas mas são elementos que têm necessariamente de conviver tensionalmente. O nosso sábio conselheiro pressupõe que se pode passar de um a outro, ora para aliviar a tensão, ora para a provocar, mas o que acontece é uma mescla: o momento torna-se estéril se não tiver um sentido a ser lembrado no futuro, e o futuro é alienante se não poder ter já algo em que se apoiar, ou será um sonho sem suporte real.

Por último, a ideia de que se perde a capacidade de gozar cada momento é simplesmente falsa e demonstra a total falta de capacidade do autor para perceber o ser humano. Na infância existe uma capacidade de apreender  “o momento” que é inigualável, cada lugar é como se fosse um planeta novo, onde cada detalhe parece espantoso, cada ocasião pode ficar marcada para sempre. Na adolescência e no início da idade adulta isto perde-se, porque o indivíduo já não está interessado em ser um mero agente passivo mas quer agora se integrar de forma activa no mundo, deixar a sua marca, provar o seu poder. Isto quer dizer que ele pode ter experiências que são objectivamente banais mas que são vividas subjectivamente de forma muito intensa, porque representam um conflito entre o indivíduo e o mundo, uma superação ou um fracasso colossal. Passar por isto é importante mas é um erro ver aqui um “gozar o momento”, porque em geral a pessoa está tão focada em si mesma que está bastante alheada do cenário e das eventuais pessoas envolvidas. A maturidade consiste precisamente em abandonar o excessivo centramento em si mesmo e abrir-se para as experiências na sua integralidade, nem demasiado passivo como as crianças, nem demasiado activo como os adolescentes. Só aí começa a desenvolver-se uma verdadeira cultura de vida, que poderá ir melhorando até aos últimos dias de lucidez. Contudo, esta terceira fase é incompreensível para quem ficou preso à fase adolescente da vida e ainda sente que tem algo a provar a si mesmo. 



4.Vai sentir saudades desse seu corpo mais tarde
Chegará o dia em que terá saudades mesmo dessas partes do seu corpo que hoje odeia. E por mais inacreditável que lhe pareça, até vai achar que, afinal, eram quase perfeitas. Cuide bem do seu corpo. Alimente-se de forma saudável e faça exercício físico.

 

Agora começa a ser evidente que o nosso sábio realmente não conseguiu superar a adolescência e tenta exorcizar os seus fantasmas assumindo um postura superior e “conselheira”. Se o adolescente não se sente confortável com o seu corpo, tendo ou não razões objectivas para isso, de nada lhe serve saber que, talvez no futuro, tudo aquilo lhe parecerá irrelevante. E a própria preocupação com o cuidado do corpo até lhe pode aumentar o desconforto, porque ele procura uma solução material para um problema psicológico. A própria alimentação “saudável” e a cultura do exercício físico já vêm cheios de mitos, podendo conduzir a resultados contrários aos desejados, e ainda dão maior importância ao corpo. Normalmente, o sujeito não odeia partes do seu corpo mas fica desolado por achar que essas partes não são do agrado das pessoas com quem quer conviver sexualmente (pode também haver um desagrado dentro do grupos de amigos mas que não toma proporções “metafísicas”). A solução para isto passa pela conquista amorosa ou, em último caso, é bem mais saudável recorrer à prostituição do que comer tofu e andar de calças de licra num ginásio.


 


5.Se alguém for realmente indelicado consigo, o problema está nele, não em si
Palavras duras e injustas são geralmente usadas por pessoas inseguras contra aqueles que consideram mais fortes ou melhores do que elas, como a única forma de os tentar abalar. Não se deixe abater.

Mais um conselho para quem apenas se quer manter à tona de água. Podemos ficar abatidos por alguém ter sido indelicado connosco não por nós mas por percebermos a miséria existencial daquela pessoa. Este tipo de possibilidade parece nunca passar pelo espírito desta besta-quadrada (penso que nesta altura já é legítimo trata-lo assim). É um pouco estranho dar este tipo de conselhos a alguém com 17 ou 18 anos, que já deveria ter experiência em lidar com estas situações. O conselho justificar-se-ia se fosse para alertar para outro tipo de situações em que podem ser mal-educados para nós e que são menos conhecidos mas importantes na vida adulta.

Por exemplo, numa situação laboral, alguém pode nos falar de forma ríspida não porque nos quer abalar ou porque quer medir forças connosco mas apenas porque quer que façamos uma determinada tarefa atempadamente, e não está em causa nenhum ataque pessoal. Por outro lado, a indelicadeza e o insulto não são apenas armas dos inferiores cheios de inveja contra os superiores. São também meios de condicionamento ideológico, usados com precisão quase científica, e seria interessante alertar os jovens para isto numa altura em que eles se começam a interessar por questões políticas. Nestas situações, o não se deixar abater é irrelevante, e pode mesmo ser necessário responder com muito mais força de insulto, humilhar se for preciso. Obviamente que este tipo de considerações está infinitamente acima daquilo que pode conceber o conselheiro mor da juventude.


6.Aprenda a pedir desculpa
Admita quando errou. Diga 'lamento', seja humilde e não arranje mais desculpas para se justificar.


Não sei quantas aulas são necessárias para aprender a dizer “lamento”. Parece que o autor se lembrou de determinada situação e depois achou que aquilo se aplica em todos os casos. Há casos em que cometemos faltas e a desculpa deve ser lacónica, porque há actos que simplesmente não têm qualquer justificação aceitável. Mas em muitos outros casos as justificações são necessárias, às vezes até para confortar o lesado. A justificação não é apenas uma fuga do rabo à seringa ou um tentar virar o bico ao prego. Quem disse que todas as situações na vida são tão simples para podermos dizer: «fui eu, lamento»? Na realidade, em muitas situações complexas, se assumimos o erro geral, isso é tão hiperbólico que não estamos admitindo nada, e ainda acabamos por nos vitimizarmos, como se disséssemos que assumimos as nossas culpas e as dos outros. Aprender a pedir desculpa é bastante mais complexo do que dizer “lamento”, que acaba por ser apenas um truque para escapar a uma verdadeira responsabilização ou, então, podemos andar a assumir responsabilidades por actos de outros.


 

7.A formação é muito importante
Acredite que se vai orgulhar da sua licenciatura para o resto da vida... e se irá arrepender se não a completar. Não interessa se vai ser médico, engenheiro ou professor, ou seguir uma profissão que nada tem a ver com o seu curso, mas fique com a certeza que será sempre um profissional melhor e uma pessoa mais esclarecida.

E eis que chega a apologia da universidade. Mas afinal o que dá o curso superior? Há sempre a vaga promessa de que se terá uma grande carreira pela frente, com muito prestígio e dinheiro, mas esqueçam isto. O curso superior permite apenas, em média, ter um trabalho melhor pago mas que não é muito mais estimulante do que aquele que se obtém numa profissão sem diploma. Pensam que vão ser advogados nas barras dos tribunais “encostando” grandes criminosos contra a parede? Vão antes tratar de casos de multas de estacionamento. Ou pensam que serão médicos a lidar com casos estranhos como aqueles que aparecem no House? Antes irão ver hemorroidas e unhas encravadas. Ou pensam que serão engenheiros a trabalhar no próximo projecto para a Nasa? Antes irão fazer umas consultas a bases de dados sem saber para que serve o resultado. E se forem professores não estarão a educar novas gerações mas a imbecilizá-las, aplicando os programas desenhados para isso. O curso superior é importante para fazer uma função especializada numa empresa que é de um milionário que não foi à universidade e se concentrou em coisas mais importantes.

É também completamente falso que um curso superior deixa a pessoa mais esclarecida. Naturalmente que na área em que a pessoa se especializou, ela ficará mais esclarecida, apesar de por vezes nem isso, já que nas áreas em maior declínio e sem aplicação material o diplomado pode ter emburrecido tanto que esqueceu aquelas coisas que antes sabia intuitivamente. E certamente que não serão mais esclarecidos no geral, o que podem é ter adquirido uma linguagem pomposa que os leva a falar de tudo sem dizer nada e assim dão um ar de saberem alguma coisa. A universidade forneceu-lhes vícios de pensamento e uma forma de raciocínio sobre partes muito fragmentadas da realidade, são incapazes de ver o todo mas conseguem engenhosas justificações de barbaridades. Por isso são em geral os universitários os apoiantes do terrorismo e do genocídio.


8.Deve dizer NÃO sempre que achar necessário 
A vida é sua e ninguém o pode obrigar a fazer aquilo que não quer. Mesmo que agora as consequências lhe pareçam pesadas, vai sentir-se muito pior se aceder a fazer algo que considera errado ou inapropriado, apenas porque os outros querem.

O problema não é dizer “sim” ou “não”, mas sim ter a coragem de se afastar de pessoas que não prestam. Quando alguém está dependente de um grupo o dilema moral já está reduzido ao mínimo, porque apenas funciona a lógica de matilha, e apenas há uma expectativa de ver qual é a próxima orientação, sem fazer quaisquer considerações de valores. Além disso, se a pessoa pertence a um grupo de canalhas, na verdade ela também já é daquelas que tentam obrigar os outros, nem que seja pela mera presença, a fazer o que não querem. É curioso que alguém que quer ensinar os outros a pedir desculpa pelos erros (ponto 6) nem se lembre de chamar a atenção para isto. Claramente trata-se de uma mente atomística e “pragmática”.


9.Tudo o que 'postar' nas redes sociais fica para sempre
Uma fotografia que retrata um momento embaraçoso, um vídeo atrevido ou um comentário irreflectido podem impedi-lo de chegar tão longe como gostaria. Cada vez mais os recrutadores usam as redes sociais para conhecer a verdadeira personalidade dos candidatos.

Não era mais simples restringir as publicações apenas a um grupo limitado de pessoas? E que merda é essa de ficar com medo do policiamento que eventuais empregadores façam no facebook ou outras redes? Hoje em dia, quem não tem facebook é suspeito de esconder algo, e os outros devem ficar sempre com receio de ser excessivos. O conselho devia ser o seguinte: rejeitar quaisquer empregadores que façam patrulha na internet e denunciá-los em público.


10.Siga a sua voz interior 
Não se deixe manipular pelos outros em relação ao que pretende fazer da sua vida. Se o seu sonho é ser advogado não dê ouvidos ao seu melhor amigo que quer á força levá-lo com ele para Publicidade. Até pode ser uma carreira mais excitante, mas se não é isso que o entusiasma, deixe-o ir.

A nossa voz interior pode não ser tão nossa como parece a este tolo. Os nossos sonhos e expectativas são quase todos derivados da pressão contínua que vem da sociedade sem percebermos. O importante não é seguir a nossa voz interior mas obter uma voz própria, que possa escutar as solicitações dos amigos e da sociedade mas ainda assim ter uma palavra final decisiva. Seguir os sonhos é apenas uma tolice daqueles asnos que se habituaram a seguir a cenoura que lhes colocaram frente aos olhos.

 

11.A meditação ajuda-o a alcançar os objectivos
Não deixe que os dias passem uns atrás dos outros, sem parar um pouco para reflectir se está a caminhar na direção certa. O curso pode não ser afinal aquilo que imaginara, e não vale a pena esperar pelo final para depois voltar a trás ou transformar-se numa pessoa infeliz. Quanto mais cedo se aperceber e tomar medidas, mais rapidamente muda para o rumo certo. Mas este hábito também lhe será muito útil em outras questões do dia-a-dia - na escolha dos amigos, no tipo de vida que leva, no investimento que está a fazer no estudo, entre outras coisas.

Realmente, se há alguém capacitado para falar de reflexão é este nosso sábio esquizofrénico, que não consegue sequer ter uma visão mínima de conjunto dos seus vários conselhos (isso é a actividade meditativa propriamente dita). O que ele também parece não perceber é que grande parte da actividade universitária dos alunos – precisamente a que causa maior frustração – é bastante semelhante de curso para curso, e deriva das próprias exigências disciplinares e burocráticas, e ainda que nada disto tem relação com aquilo que se vai encontrar no mercado de trabalho. Certamente que a reflexão é importante, mas estamos a iludir os incautos se acharmos que ela se pode fazer pelos mínimos indícios. A reflexão, para ser efectiva no mundo real, exige antes uma longa e demorada colecta de dados, exige também um conhecimento das situações humanas. Os jovens inteligentes que se habituam a pensar e decidir rápido apenas irão se viciar em racionalizações e iludir-se a si mesmos.


12.Viaje
Esta é a fase ideal para conhecer outras formas de estar na vida. Nem sempre é preciso gastar muito, se souber procurar boas oportunidades. Pode viajar de comboio, autocarro ou em voos low cost e tentar ficar em casa de amigos, ou de amigos de amigos, para poupar na estadia. E porque não aproveitar o convite do seu colega polaco para ir visitar o país dele? Vai precisar de mundo para ser um bom profissional e isso não se consegue na faculdade.

A juventude não é, seguramente, a melhor idade para viajar (mas a infância poderá ser), a não ser que o objectivo seja provar a si mesmo que se é capaz de partir para lugares desconhecidos e desenrascar-se em situações imprevistas. Os jovens são demasiado auto-centrados e não conseguem se esquecer um pouco de si mesmos para conhecer outras formas de vida, a não ser nos seus aspectos mais caricaturais. Jovem, ganha vergonha na cara e não gastes mais dinheiro dos pais em viagens onde irás fazer figura de idiota. Espera até trabalhares para poderes financiar os teus próprios projectos.  

 


13.Não polua o seu corpo
 
Não fume, não abuse do álcool, não tome drogas, e reduza a junk food ao máximo. As toxinas afetam não apenas a sua saúde, mas também a sua beleza exterior - arruínam a pele, o cabelo e retiram-lhe o brilho característico da juventude. E estes hábitos influenciam a imagem que as pessoas constroem sobre si. Cuide-se.

Os jovens não “poluem” o corpo como um objectivo em si mas em decorrência das suas actividades grupais e de conquista, pelo que a observação de que “estes hábitos influenciam a imagem que as pessoas constroem sobre si” acaba por ser descabida. O simplismo destes conselhos não permite ver as situações como elas aparecem na realidade. A questão passa por saber o que cada um está disposto a fazer para chegar a determinados fins. Colocar no mesmo saco tabaco, álcool, drogas e junk food é misturar coisas com efeitos muito diferentes, algu,as que até podem ser benéficas. Na verdade, este ponto não é um conselho mas uma forma de pressão social para criar indivíduos ordenados segundo a ditadura do politicamente correcto.


14.Dê uma oportunidade aos outros
Escute as pessoas mesmo quando não concorda com elas. Tente perceber o que as leva a defender argumentos diferentes dos seus - por vezes, até há factos que pode desconhecer. Não faça julgamentos precipitados. Tenha uma mente aberta.


Não percas tempo a escutar idiotas, aproveita para estudar. Se é para ouvir alguém, escolhe quem sabe muito mais que tu e não adoptes uma postura de concordo / discordo mas de simples absorção. Quem entra para uma universidade já tem idade para se ter exercitado o bastante em discussões. Daqui para a frente, só deve entrar em discussões se a sua participação tiver uma importância moral objectiva.



15.Seja você próprio
Pare de se comparar com os outros ou de tentar ser uma cópia de alguém. Esse é um comportamento típico da adolescência que é suposto não levar na bagagem para a faculdade. Aprenda a valorizar os seus pontos fortes e tente melhorar os fracos, sem lhes dar demasiada importância.

Ao contrário do que diz o conselheiro, o adolescente é aquele que já superou a fase de comparação com outros e agora quer ser “ele mesmo”. Na realidade, este é um conselho de um adolescente tardio que pensa ser adulto apenas porque está rodeado de pessoas ainda mais infantis que ele. O universitário deveria aprender a ser eficaz e não se preocupar com quem ele é.



16. Fale com os professores
Peça ajuda sempre que precisar. Na faculdade os professores são mais distantes, mas não são inacessíveis. Conversar com eles sobre dúvidas ou dificuldades pode até contribuir para que fiquem com mais atenção ao seu desempenho e possam ajudar a abrir-lhe algumas portas quando for preciso.

Fale apenas com os professores que forem também pessoas.


17.Se quer receber, não se esqueça de dar
Em vez de se queixar que a senhora de idade que lhe aluga o quarto lhe desliga o esquentador quando se demora no duche e não o deixa cozinhar depois das 21h, já pensou em oferecer-se para lhe carregar os sacos do supermercado ou a ajudou a conversar com o neto que está em Londres, através do Skype? Se lhe tentar agradar mais vezes, talvez ela até o adote como um neto e feche os olhos a algumas coisas.

Treta. Quem dá pensando em receber já é um cretino oportunista, e ainda pode sair frustrado porque muitas pessoas nunca retribuem e gostam de se aproveitar de quem dá. Dê, simplesmente, se quiser cultivar a virtude da generosidade. Se quiser receber, então volte para a casa da mãe porque ainda não está preparado para a vida adulta.



18.As pessoas vão tratá-lo da forma que as deixar
 Está nas suas mãos o poder de determinar como as pessoas o vão tratar. Rodeie-se de pessoas positivas, bem formadas e divertidas, e mantenha as negativas ou abusadoras à distância. Esta é a forma de ter uma vida mais agradável.

Isto é quase verdade, porque toda a gente quer estar rodeada dos “bons” e afastada dos “maus”. No entanto, isto é bem mais difícil do que parece, mas a nossa aventesma não dá por isso. Para evitarmos que certas pessoas nos tratem mal temos que estar dispostos a tudo, inclusivamente a metermos a mão na cara dos idiotas, e depois ainda seremos mal vistos por todos os cobardes que não querem ver a ordem perturbada. Encontrar pessoas “positivas, bem formadas e divertidas” é difícil, talvez porque são uma minoria e estão preocupadas em fazer coisas mais importantes do que cuidar dos seus colegas infantis. Afastar-se dos negativos e dos abusadores é mais difícil do que parece porque estas pessoas não surgem logo com um rótulo pejorativo e podem até começar por vender a sua afeição. O importante é não ser um débil emocional, para não ser capturado pelos grupos parasitas, e ao mesmo tempo conseguir identificar, mediante uma espécie de ressonância não meramente afectiva, as pessoas válidas.



19. Repare como os colegas tratam os pais e... os empregados
Quando conhece alguém (especialmente alguém por quem se sinta atraído), observar como lida com os pais é um bom indicador do que poderá esperar dessa pessoa no futuro. Também a forma como trata os empregados - de lojas, cafés - diz muito sobre o seu carácter.

Finalmente um conselho que posso subscrever, contudo, tem ele noção de como se conjuga isso com outros conselhos, como aquele de dar uma oportunidade aos outros (14)? Quantas observações são necessárias para condenar e aprovar alguém? E como tratamos nós os nossos pais e empregados?


20.É possível ter boas notas e divertir-se ao mesmo tempo
O truque é fazer uma boa gestão do tempo. A universidade implica muito mais estudo do que o secundário, mas não precisa de lhe dedicar todo o tempo que passa acordado. Além disso, não é necessário estudar afincadamente todos os dias. Nas épocas de testes e exames convém reduzir as saídas, mas há sempre espaço para desanuviar. Preocupe-se em descobrir rapidamente qual o melhor método de estudo e depois encaixe a diversão no tempo livre.


Um conselho quase tão vazio como todos os outros. Entrar numa dualidade de estudo / diversão é uma das maiores causas de frustração nos estudantes, que sentem que o estudo lhes rouba o seu direito ao divertimento e que o divertimento lhes pode penhorar o futuro. Na realidade, muitas saídas podem ser tediosas e frustrantes, ao passo que o estudo pode ser divertido, em certa medida. Mais importante que isto é saber quais são as nossas motivações pessoais profundas, que para serem válidas terão que ir muito além de “estudo e diversão”.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Uma palavra ao revolucionário

Caro revolucionário,

Começo por pedir-te desculpas pela minha cobardia, uma vez que falo de indivíduo para indivíduo em vez de me dirigir a um colectivo. Sei que me devia endossar não a ti mas aos revolucionários como um todo, já em posição defensiva e receando a vossa força grupal avassaladora. Lamento não ser humilde o suficiente para me colocar, inerme, debaixo das vossas botas em marcha. Talvez um dia aprenda a ser pisado com resignação ou, melhor ainda, me junte a vós e aprenda a pisar. Até lá apenas sei falar assim de igual para igual.

Sei que queres transformar o mundo à tua imagem e semelhança. Nada mais óbvio, porque Deus morreu mas não queres ser como Nietzsche, um “super-homem” num mundo niilista, condenado a morrer abraçado a um cavalo. Ora, se Deus morreu, o lugar está vago e à tua disposição! Há quem te chame louco por esta pretensão, mas não tentarei demover-te de algo tão tentador e aliciante. Muitos de nós nunca sonharam ser Deus, mas acredito que uma vez congeminada essa possibilidade nenhuma outra será apelativa. Na verdade, se imaginas ser Deus é porque já és Deus: vê como é fácil corrigir o argumento de Santo Anselmo.

Também sei que não te posso demover da causa revolucionária falando dos massacres, dos campos de concentração ou do terror que os teus camaradas espalharam. Certamente que os massacrados merecerem o seu destino, especialmente os mais inocentes, e a história um dia irá glorificá-los como um degrau rumo à meta final. O sangue derramado fecunda a terra de futuro, e sabe-se lá quantas mais coisas sereis obrigados a fazer para combater as injustiças. Como é doce a liberdade parida pelo sofrimento atroz. Aqui não há mácula, tudo é perfeito, inebriante, como a faísca do martelo que bate na bigorna, como o grito do prisioneiro que recebe o choque na pele, como o último olhar do homem atingido pela metralha. Sim, tu és como os velhos deuses, exiges sangue, sacrifícios, ou a tua glória não é elevada aos céus.

Mas por vezes o "antigo" teima em manter-se de pé e tarda em ser esmagado pela marcha do tempo. Por isso, sei que te vês obrigado em ser um elemento corrosivo que o desfaz por dentro; és um agente cancerígeno que vai matando aos poucos, primeiro de maneira indolor, nulificando as funções, estupidificando, corrompendo. Tal como apressas a meta final da revolução, também apressas o final da sociedade tradicional, porque tanto a ascensão de uma como a queda de outra são coisas inevitáveis. Oh, quantos séculos de existência humana conseguiste abreviar com feminismo, gayzismo, abortismo, pacifismo, ecologismo, desarmamentismo. Os milénios não tiveram que esperar pacientemente para que uma nova era chegasse, pois já ali ao virar da esquina esta civilização vai perecer às tuas mãos.  

Por último, há que louvar-te por tudo o que fizeste para criar uma nova linguagem. Na linguagem antiga, por meio de muitas dificuldades, os homens ainda conseguiam entender-se e assim acabavam por se acomodar, talvez até amar o próximo. Mas tu fizeste da linguagem um elemento de incompreensão: o homem já não se encontra em terreno firme e assim já pode ser arrancado pela história e lançado no futuro, deixando-se manipular pela vanguarda do povo. O teu trabalho neste campo já vai avançado, pelo que estou consciente de que dificilmente serei entendido por quem me leia. Talvez aches que isso é uma espécie de caridade, porque se o vulgo estiver na incompreensão também não sofrerá a angústia de antever o rolo compressor que o esmagará.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acção ou reflexão?

A acção é uma dupla escravidão, mas também uma dupla libertação. A acção começa por nos escravizar o corpo, por vezes até nos tomando a vida, e cada homem sente isto porque nele há sempre um desejo latente de viver na terra de Cocanha. Mas a acção também escraviza porque nos pode tomar a alma, que ficar retida ou suspensa pelos fins limitados, e assim coloca-nos abaixo dos animais, já que para estes a pura acção não está em oposição à natureza que os possui. Ou seja, o homem tem a capacidade de ser apenas animal, mas assim nem chega a ser homem, torna-se numa besta mitológica.

Também a reflexão é uma dupla escravidão e uma dupla libertação. Ela pode libertar-nos da escravidão da acção. Por um lado, ela pode libertar o corpo, encontrando melhores formas de o usar ou dando-lhe ferramentas que o aliviam. E a reflexão também libertará a alma presa à acção, dando um contexto e um sentido a cada tarefa.

Contudo, a reflexão também escraviza o corpo, inundando-o desejo. Podemos achar que o desejo é mero instinto e imaginação, mas ele apenas se torna avassalador com a ajuda da reflexão, que trabalha cada inclinação e imagem para formar uma bola de neve incontrolável. A acção servirá, então, de elemento de alívio, que libertará energia e tensões. E a reflexão também consegue escravizar a alma, prendendo-a a concepções irrealistas, a teorias fantasiosas, que no limite podem levar à loucura. A libertação pode vir pela acção, que começa logo por nos prender às condições de espaço e tempo, dando-nos assim de forma implícita um princípio de orientação.

O ser humano está assim colocado numa cruz (e este simbolismo aplica-se a muito mais situações), em que um eixo é a alma e outro o corpo. Em cada eixo existem as forças actuantes da  acção e reflexão. O homem está numa situação de permanente instabilidade, sendo puxado nas várias direcções e frequentemente esquece que pode decidir como quer usar os elementos à sua disposição, ainda que tal não lhe dê de imediato o controlo sobre os mesmos. Podemos ser treinados para agir e para reflectir, mas seremos como que meras máquinas defeituosas enquanto não soubermos como e quando combinar estes dois momentos.





Nota: Este post e este aqui partiram exactamente da mesma experiência de base – uma simples mudança de habitação – e exemplificam as diferentes posturas que tenho em cada um dos blogues. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Olvido de Cassandra

Cassandra é uma personagem peculiar na mitologia e no teatro grego. Ela é a famosa profetisa, filha do rei Príamo de Tróia, em quem ninguém acredita e assim não consegue evitar a queda da sua cidade. Ésquilo utilizará depois a personagem, agora como consorte de Agamémnon, e novamente Cassandra vai profetizar desesperançadamente, sabendo que nada evitará o seu destino trágico. Ao lermos as obras antigas, a presença de Cassandra parece-nos apenas um efeito cénico, que visa dar algum colorido à história mas que realmente nada de substancial lhe acrescenta, estando o verdadeiro drama centrado noutras personagens. Isso ainda parece mais óbvio quando inúmeros autores desde então têm copiado este efeito cénico de alguma forma, e parecendo-nos um procedimento ingénuo comparado com outros que surgiram no desenvolvimento da narrativa. Cassandra serviria apenas como um símbolo da impotência do conhecimento, quiçá convidando à resignação. Contudo, os autores antigos – pelo menos os mais distintos que nos chegaram – não eram ainda profissionais no enchimento de chouriços, e a experiência mostra que aquilo que neles nos parece irrelevante exemplifica apenas a nossa incompreensão. Vou tentar salientar dois aspectos, que provém de interpretação minha, sem os quais não acredito que seja possível compreender o mito de Cassandra.

Em primeiro lugar, Cassandra é dada como louca quando profetiza sem ser acreditada, mas a nós, espectadores distantes e sabedores do fim da história, parece-nos quase o oposto, que loucos eram aqueles que não lhe queriam dar ouvidos. A minha interpretação é que Cassandra realmente fica louca porque não consegue suportar que terríveis verdades que lhe são tão evidentes não possam ser partilhadas com a comunidade. Esta é a terrível sina do conhecimento, o isolamento que ele provoca entre o portador do conhecimento e os outros homens. Por mais óbvia que uma coisa nos pareça, nada garante que conseguiremos convencer mais alguém a ver a situação da mesma forma. E se toda a nossa cosmovisão se torna incompreensível aos restantes, viveremos numa espécie de realidade paralela, e acabamos por sair da comunidade dos homens, algo que poucos conseguirão suportar. Em desespero, podemos “cortar a nossa cabeça” para voltarmos a estar à mesma altura do vulgo, mas também isso é uma ilusão de reintegração social, porque uma coisa é o homem que não quer ou não consegue ver, outra é aquele que viu e decidiu esquecer para não mais voltar a ver, e assim amputa uma parte de si mesmo, ficando condenado a viver num deserto sem fim, sempre atormentado pelo fantasma da sua renúncia.

A consciência da problematicidade da posse do conhecimento, que acredito já estar contida no destino de Cassandra, foi se tornando mais aguda. Heráclito dizia que as pessoas não conseguiriam compreender o que ele dizia, por mais óbvias que fossem. As primeiras escolas de pensamento, como a dos pitagóricos ou a dos eleatas, tinham um carácter esotérico, porque havia a necessidade de criar uma comunidade própria isolada da vida mundana, onde o conhecimento pudesse ser aceite por cada um. Ainda assim, as escolas eram frequentemente perseguidas por serem vistas como perigos. Os próprios profetas hebraicos também corriam enormes riscos, tanto sendo adorados como vistos como uma presença intolerável. Sócrates se tivesse sido um mero retórico não teria sido levado a tribunal, mas ele mostrava saber algo a mais do que os outros e a todos instava, como um moscardo, a seguir a mesma busca. Pôncio Pilatos pergunta diante de Cristo: «O que é a verdade?» Ele não apenas sabe que Cristo está inocente como finge não saber que Ele é o próprio Logos encarnado, mas decide lavar as suas mãos e seguir a multidão. Neste episódio fica expresso todo o ódio ao conhecimento do homem moderno, que ficou preso a alguma experiência traumática de posse do conhecimento que o tenha afastado do seu grupo de referência, e daí para a frente ele empenha-se a não compreender mais nada. Na realidade, ele nem precisa ter essa experiência pessoalmente, basta-lhe ter visto acontecer a outros.  

O outro aspecto que pretendo ressaltar na história de Cassandra, e que está relacionado com o anterior, tem a ver com a maldição que lhe foi imposta. Apolo, despeitado por não conseguir consumar uma relação carnal com ela, dita que ela será uma vidente sem qualquer poder de persuasão. Podemos logo começar por questionar se Apolo desejava assim tanto Cassandra, porque Ájax na mesma situação não hesitou em violá-la, mesmo em pleno templo de Atena. É evidente que não podemos exigir uma total coerência lógica de um relato mito-poético, mas neste caso talvez isto tenha algum relevo, como veremos mais adiante. É fácil de constatar que a maldição que Apolo lança sobre Cassandra na verdade atinge toda a comunidade, ou seja, cada ser humano ficou amaldiçoado porque deixou de ser sensível às verdades mais óbvias. No mundo grego, a loucura era frequentemente vista como uma manifestação da posse divina, pelo que Cassandra não era ignorada pelo seu estado mas pela perda de faculdades dos seus ouvintes.

Há aqui uma queda ontológica, análoga ao Pecado Original mas que não tem nem o mesmo alcance, nem o mesmo nível de auto-consciência e nem o mesmo sentido último. No relato do Génesis, apesar da expulsão de Adão do paraíso representar uma queda não só do homem mas de toda a criação, o mundo continua a ser, apesar de todas as suas contradições, algo bom. A vida, paixão e morte de Cristo ainda vieram garantir que apenas vai para o Hades quem assim escolher. A perspectiva gnóstica só torna-se dominante na modernidade com a perda de força do cristianismo, mas não era esta a visão no mundo grego. Na peça Agamémnon, Ésquilo mostra-nos que não era apenas Cassandra a estar amaldiçoada mas todos os restantes, e o próprio rei de Micenas parece desejar o abismo quando concede caminhar sobre as tapeçarias púrpuras, aliciado por Clitemnestra, sua esposa adúltera, sabendo que aquele privilégio estava reservado aos deuses, incorrendo assim em hybris. Felizmente, possuímos o restante desta trilogia, a Oresteia, o que nos permite tirar mais algumas conclusões.

Tal como Tróia tinha caído por não escutar Cassandra, também Agamémnon não é sensível aos vaticínios dela e tem o mesmo destino, caindo às mãos de Clitemnestra e Egisto, que irão depois tombar no ferro de Orestes. O julgamento torna-se necessário, porque Orestes, por um lado, tinha sido um agente da justiça instigado por Apolo mas, por outro lado, também tinha assassinado a própria mãe. A casa dos atridas já vinha sendo fustigada há algumas gerações por uma série de vinganças sangrentas, que eram ao mesmo tempo reparadoras mas também iniciadoras de novos ciclos de injustiça a ser reparados. O julgamento de Orestes representa um questionar deste mesmo processo, que parece não ter fim. O próprio Apolo entra como testemunha no julgamento defendendo Orestes, e questionado sobre a ignomínia da morte de uma mãe, ele confessa que é apenas um veículo do seu pai Zeus. Aqui podemos questionar se a maldição de Apolo sobre Cassadra, logo sobre toda a humanidade, não teria sido igualmente ditada por Zeus.

Isto é particularmente significativo porque, quase no início da trilogia, Ésquilo tinha, no chamado “Hino a Zeus”, esboçado uma espécie de monoteísmo, onde o deus supremo do Olimpo já era quase que uma espécie de princípio metafísico. Já não se trata de uma intervenção caprichosa de algum deus mas da estrutura profunda da realidade, tal como os gregos a viam, que assim se mostra ser trágica para eles. O arranjo final da peça parece-nos estranho: Orestes é salvo à tangente não por intervenção divina soberana mas por um arranjo mais ou menos burocrático entre homens e deuses, e um difícil apaziguamento das Erínias. Isto é necessariamente assim devido a contradições na concepção originária que os gregos tinham da estrutura da realidade, onde não existe um verdadeiro princípio que não entre em contradição consigo mesmo se aplicado a todas as situações. Isto começou a ser resolvido por Platão e Aristóteles, mas só se tornou ultrapassado com o advento de Jesus Cristo.

Contudo, não é uma conquista ganha para sempre, tendo, pelo contrário, que ser reconquistada de geração em geração, ou então cairemos numa cosmovisão trágica e gnóstica. Começa logo por redescobrir o sentido profundo dos mitos como o de Cassandra, que só é efectivado quando reconhecemos as Cassandras do nosso tempo e a nossa tendência para o esquecimento e para a cegueira. Depois, não podemos ver a filosofia grega como uma relíquia histórica, definitivamente ultrapassada por Kant, Russel ou Derrida, que não passavam de pobres coitados empenhados em não entender nada. Por fim, temos que perceber aquilo que Cristo trouxe de novo e de alguma forma alberga-Lo em nós.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Da crença

Os jovens ateus, supondo não serem possuidores de fé, acham-se frequentemente acima dos crentes. Olham para a idosa do povo que acende uma vela a alguma instância sagrada, pedindo que o filho se cure, e sentem-se superiores, como se vivessem num patamar distinto da realidade, onde não há necessidade de recorrer a expedientes divinos para resolver os problemas pessoais. Acham também que podem dispensar o mistério, porque é sempre possível recorrer ao oráculo da ciência para obter uma explicação – ao mesmo tempo definitiva e não aberta a contestação mas também provisória e prenhe de reavaliação – sobre o que quer que seja. Na realidade, esta descrição aplica-se a muitos crentes modernos, que relegam a religião para um domínio íntimo totalmente irrelevante, como se rezar fosse tão vergonhoso como o hábito de ir sorrateiramente à dispensa comer bolachas. Os ditos crentes recusam reconhecer qualquer intervenção divina na realidade, para além da infusão de uma vaga inspiração, e consideram que se deve dar à ciência o que lhe é devido, segundo os cânones da modernidade, isto é, que seja ela a única fonte de conhecimento legítimo e ainda a única autoridade que possa ditar o que pode ou não pode ser conhecido e de que formas. Esta postura amorfa e “recolhida” do crente de hoje, ao invés de provocar uma tolerância para com o religioso, pelo contrário, incita o desprezo e mesmo o ódio em relação ao crente e à religião: o homem detesta o fraco e receia o forte.


Contudo, se recuarmos para períodos de fervor religioso mais autêntico, as coisas não eram assim. Antes de se espalhar a ideia kantiana da fé como crença em algo que não pode ser fundamentado, a fé era naturalmente a fidelidade a algo: a uma experiência em que o transcendente se tinha revelado à pessoa, importando que essa experiência não caia no esquecimento que a dissolução do cotidiano providencia, ou a simples experiência na confiança numa pessoa como Cristo. Isto em si é naturalmente problemático, e mais ainda quando se liga à aceitação de uma doutrina que levou séculos a ser desenvolvida. Percebemos que algo está errado quando um religioso mostra uma fé inabalável, monolítica, e vocifera mecanicamente palavras da doutrina religiosa, e o chamamos de radical, fanático, fundamentalista. O homem religioso sempre teve que lutar contra o esquecimento, daí na antiguidade ser tão fácil a multiplicação de deuses, que serviam para revigorar a crença, e o próprio Cristo foi continuamente providenciando o aparecimento de santos para trazer as pessoas para mais perto de si.


Pelo contrário, o ateu (ou melhor, o ateísta, porque o verdadeiro ateu é sobretudo aquele que não se interessa pela questão de Deus), muitas vezes sem perceber, opta pelo caminho fácil da crença inabalável. Ele já resolveu, de uma vez por todas, uma série de problemas: não existe Deus, nem transcendência, nem milagres, e toda a experiência religiosa é uma sequência prodigiosa de auto-enganos, ilusão de massas, demências mentais, mentiras, falsificações, etc. É também notória a sua crença inabalável sobre os ditames da ciência e, mais subtilmente, pelo poder criador da sua própria palavra. Ou seja, o ateísta não acredita no poder criador da palavra divina mas crê que tudo aquilo que ele é capaz de verbalizar sem ironia é verdade, o que remete para uma espécie de auto-divinização.


A crença ateísta apresenta fortes sintomas neuróticos, não só por ser crença esquecida mas por partir do princípio de que a matéria é uma ditadora de leis absolutas num universo sem qualquer inteligência permeando-o. Resta ao ateísta passar o resto da vida procurando contradições lógicas nas palavras dos santos, não percebendo o desnível ontológico que o separa deles, fazer interpretações retorcidas das palavras Bíblia, apregoar as falsificações históricas contra a religião tantas vezes já desmascaradas, e achar que quanto mais confinado estiver na sua torre de papel, mais protegido estará contra o obscurantismo, contra a crença cega, contra a ilusão. São figuras patéticas que têm orgasmos quando escrevem “deus não é grande”, acusando-O ao mesmo tempo de todos os males, especialmente do pecado de Ele não existir.


Contudo, quando nos apercebemos da dimensão patológica do ateísmo, isso não nos coloca de imediato numa via espiritual autêntica. Se entrarmos para uma comunidade religiosa, pensando que ela é uma porta de entrada para a verdadeira religião, o mais provável é cairmos numa situação dominada por aspectos tão profanos como aconteceria em qualquer outro grupo. Rapidamente nos desiludimos e apenas vemos ali “consumidores de ópio”. Resta-nos ir ao encontro do divino onde ele se encontra: visitamos as catedrais, ouvimos música sacra, contemplamos a vida de santos como o padre Pio, estudamos os milagres reconhecidos pela Igreja, etc. Mas nem isto pode nos bastar. Então ficamos sós, sem saída, sem recursos para ir mais além e questionamos se tudo é verdade ou mera ilusão: Deus existe? Cristo ressuscitou? Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho? O arcanjo Gabriel ditou o Corão? Buda realmente despertou? Se tudo isto for mera curiosidade intelectual, não encontraremos uma verdadeira resposta, já que argumentos de um lado e de outro podem sempre ser lançados. Só podemos obter uma resposta se as questões se tornarem mortalmente sérias para nós, e aí sabemos que somos totalmente impotentes para lhes darmos resposta, mas ainda assim queremos saber. É realmente verdade? Uma resposta definitiva não pode vir de nenhuma pessoa nem de um grupo, qualquer que ele seja. Só pode vir de uma fonte absoluta e, mesmo sem percebermos, a nossa dúvida, quando é absolutamente sincera, já é uma forma de falarmos com Deus e, mesmo que seja para nega-Lo verbalmente, já começamos a aceitá-Lo em nós.



Este post foi também publicado, simbolicamente e excepcionalmente, no blogue Prometheo Liberto, onde iniciei recentemente a minha colaboração.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O movimento das massas (3)

Ninguém defende que uma manifestação possa ser puramente espontânea, no sentido de ser um resultado de movimentos individuais aleatórios, já que isso anularia o próprio sentido da coisa e daí não poderia daí advir qualquer vantagem política. Os organizadores de um protesto não negam a sua convocação mas falam em espontaneidade das reacções, em dinâmica social, para dizer que não actuaram como manipuladores de massas mas como intérpretes de uma vontade patente mas ainda não expressa. E em geral isto é verdade, porque os organizadores materiais de uma manifestação estão demasiado ocupados para poderem fazer o trabalho subterrâneo e de longa duração de gestão das consciências alheias, mas desenganem-se aqueles que acham que a divisão do trabalho é uma invenção liberal, pois ela existe desde que os primeiros mamíferos começaram a caçar ou a organizar a vigilância em conjunto. Contudo, o mito da espontaneidade persiste, tanto no cidadão comum como no letrado, porque nenhum deles tem coragem suficiente para reconhecer o quanto é manipulado desde fora.
Reconheçamos o quão anémicos são os actuais caminhos da dialéctica, quando alguém, que pretende contestar uma opinião que é dada como certa por todos, sente-se na obrigação de afirmar que “uma coisa é a opinião pública, outra é a opinião publicada”. Claro que a maioria dos cidadãos não partilha da opinião “publicada” (leia-se impressa, radiodifundida, teledifundida, blogoesparramada), que é abortista, gayzista, pederasta, hedonista, cocaínama, globalista, ultra-individualista, etc. Aqui está algo a ser aproveitado por conservadores e tradicionalistas, mas apenas no caso de serem totalmente alteradas as relações entre o indivíduo e a coisa pública. Uma opinião pode ser partilhada por 98% das pessoas mas, se estas não tiverem canais de expressão, vai pesar menos do que a opinião dos restantes 2% que esteja bem articulada e veiculada pelos canais mediáticos. Isto quer dizer que, em termos políticos, só existe opinião publicada e tudo o resto é um imenso resíduo com um peso insignificante, tal como a famosa matéria negra, que talvez constitua a esmagadora percentagem da matéria do universo físico mas nem sequer sabemos se ela existe.
É impossível não ver algo de estranho no facto das massas, cuja opinião em geral não conta rigorosamente para nada, de repente, quando convocadas para um protesto, serem tidas como a força preponderante na sociedade. Obviamente que as massas só ganham tal estatuto quando repetem cegamente alguma opinião decretada pela pequena minoria de iluminados que domina a opinião publicada. Na verdade, trata-se de algo necessário para ambas as partes. Por um lado, as elites ocultas procuram algum tipo de legitimação popular, que tanto pode ocorrer em actos eleitorais como em manifestações ou outros actos públicos informais: assim a democracia dá um leve indício de funcionar conforme o que era suposto. Por outro lado, a populaça precisa de ser ouvida para aliviar as suas tensões, e no fundo sabe que apenas participa numa encenação grotesca, mas um pacto de silêncio atira para o fundo da consciência esta constatação. 
Os actos que supostamente legitimam a democracia são precisamente aqueles que a consolidam como uma oligarquia impenetrável. Era suposto as eleições servirem para o povo eleger para seu governo aqueles que considera os seus melhores representantes, levando à formação de uma elite pelo mérito ou então à responsabilização colectiva pela escolha de medíocres. Ora, nem isto aconteceu na antiga democracia directa grega e menos ainda ocorre na moderna democracia representativa, e o alargamento do sufrágio ao invés de corrigir isto apenas parece ter agravado a situação. Se na democracia directa qualquer um com algum talento natural para a palavra pode ser um candidato natural, na democracia representativa o candidato já pressupõe atrás de si uma máquina capaz de chegar aos possíveis representados por meios não democráticos, ou seja, só é possível ser eleito através de um poder já consolidado e não eleito, que por vezes se chama de “partido” mas que quase sempre é um aglomerado de interesses que o transcende largamente, podendo mesmo envolver grupos internacionais. O cidadão quando vota apenas está legitimando este sistema oligárquico – que está encoberto mas é relativamente fácil de identificar, pelo menos até certos limites –, que lhes dá a escolher uma série de candidatos, todos muito idênticos e medíocres, com algumas aberrações misturadas para os primeiros parecerem mais razoáveis. No fim, podemos dizer que a sentença “cada povo tem os políticos que merece” se torna numa profecia auto-realizável, dado que o processo envolve uma corrupção moral de parte a parte.
Muitos acham que isto se corrige com uma coisa estranha chamada “democracia participativa”, onde presumivelmente se incluem todos os actos não oficiais onde se discute a coisa pública. Só que aqui estamos novamente limitados pela linguagem pública e pela selecção de temas ditadas por uma ínfima minoria e que já determinam de antemão todo um leque de opções, pelo que o processo é sobretudo uma dominação mental indolor, funcionando até como uma espécie de terapia, onde os sofrimentos e as ideias individuais vão se acomodando progressivamente a um modelo pré-definido de discurso, o único que possibilita a obtenção de algum eco, e no final tudo se transforma na única coisa que poderia ser desde o primeiro momento. Não é coincidência que a ideia de autonomia pessoal e a presunção de pensar pela própria cabeça tenham se difundido precisamente na altura em que se tornaram mais irreais que nunca, porque isto coincidiu com a aplicação generalizada da estratégia de revolução lenta, isto é, quando se trocou a proposta explícita de criar um mundo socialista por uma miríade de pequenas alterações, aparentemente independentes umas das outras e cada uma com os seus métodos próprios de consecução. Tudo isto parece simplesmente «o mundo em mudança», e querer se opor ao conjunto parece um esforço tão inglório como querer parar as vagas do oceano com as próprias mãos. Não é ao nível do discurso que percebemos alguma unidade entre todas as propostas parciais mas reconhecendo uma mentalidade de base que permeia todas: está sempre implícito o imperativo de abolir o passado em nome de um projecto de futuro. A nível material podemos também encontrar uma certa unidade nas fontes de financiamento de todos os movimentos de ruptura e de “avanço civilizacional”, mas isto não implica que exista um grande controlo sobre o rumo das coisas somente que o indivíduo está impotente contra uma rede incessante de pressões alienantes.

terça-feira, 30 de julho de 2013

As virtudes da compreensão lenta

É comum fazer-se o elogio implícito à capacidade de rápida compreensão. Quando ela se dirige a fins eminentemente práticos, diz-se que é uma questão de esperteza, e quando se trata de problemas de cariz intelectual então é vista como inteligência ou mesmo genialidade. Contudo, todos nós conhecemos “gente esperta”, que sempre conseguiu se desenrascar, mas que chegam a uma certa idade e, de repente, parecem ter sido ultrapassados por todos os outros, e continuam a aplicar receitas estereotipadas que não resultam mais e só eles não percebem como se tornaram patéticos. Sobre os “génios precoces” a coisa ainda é mais catastrófica, não porque alguns não consigam ocupar postos de elevada competência intelectual, mas porque quase todos são atacados de tantas fragilidades que, no conjunto, mais parecem débeis mentais.
Os antigos já sabiam que desenvolver muito a inteligência independentemente de outras capacidades era o mesmo que o corpo ter um membro muito mais desenvolvido do que os outros, o que só acabaria por atrapalhar e criar um ser monstruoso. Frank Abagnale – o maior impostor da história, sem contar com os ocupantes de cargos políticos – diz que a sua perdição de juventude era a enorme capacidade de observação que tinha e que lhe permitia engendrar num instante os esquemas mais mirabolantes. Ele tinha esta capacidade muito desenvolvida em relação ao conhecimento que tinha do conjunto da sociedade e, especialmente, das complexidades do ser humano, que só veio a adquirir mais tarde, tornando-se num cidadão respeitável. Em geral, ser detentor de uma capacidade especial coloca logo dois problemas: por um lado, a pessoa é detentora de um poder que dificilmente conseguirá dominar; mas irá também chamar atenções e assim suscitar invejas, receios e a cobiça de quem a queira usar para fins que ela nem suspeita.
Estas considerações ganham uma especial relevância quando se trata da avaliação dos problemas que a realidade apresenta e que transcendem o lado meramente prático, como acontece com os problemas sociais, políticos, históricos, etc. Ainda continuamos a valorizar o artista que mais rapidamente ofereça a interpretação de qualquer acontecimento. Os canais de notícias apresentam rotineiramente painéis de “experts” comentando eventos quase em tempo real, e no facebook qualquer um pode simular essa capacidade. É fácil perceber que, com este ritmo vertiginoso, já ultrapassamos o tempo em que cada um tem opinião sobre tudo, porque já nem há tempo para engendrar essa opinião, ainda que esta seja a mera recolha de ideias flutuantes no ambiente. O que temos hoje é um tipo abastardado de militância, onde cada um repete o discurso do seu grupo de referência, ainda que este seja mera criação mental. É frequente um indivíduo frequentar um site de notícias apenas para repetir, quase sem alterações, o mesmo comentário em vários locais, primeiro numa notícia de política nacional, depois numa de futebol e por fim numa a respeito do último produto tecnológico. E não faz isto como se fosse uma coisa paralela, mas acredita que está mesmo em sintonia com as várias notícias.
O que é estranho é que estes casos não são encarados como o que são – perturbações mentais – mas apenas como a opinião legítima em liberdade democrática, que não é visto apenas como o direito ao erro mas como o privilégio do erro ou o discurso aleatório reclamarem para si o mesmo valor que aquele possuído pela verdade. Isto quer dizer que aqueles que se esforçam por saber o melhor possível como as coisas são não podem ter esperanças de obterem qualquer reconhecimento por isso. Muito provavelmente, como vão dizer coisas que não batem certo como o «senso comum», serão acusados de proferir opiniões pouco reflectidas, quando será o oposto. As massas estão imbecilizadas, pelo que agradá-las só é possível se representarmos um ponto central dessa imbecilidade. Isto não quer dizer que não temos o dever de fazer algo por essas massas, até porque não podemos ser ingénuos de achar que a imbecilidade colectiva não nos afecta. Mas para fazermos algo de útil, num contexto de caos, temos primeiro que nos recolher para reflectir e buscar a companhia, ainda que imaginária, daqueles que fazem ou fizeram o mesmo. É aqui que se torna importante considerar o fenómeno do entendimento e da compreensão.
O simples entendimento de algo é uma pequena luz que se faz em nós. Contudo, nem toda a luz é entendimento e menos ainda compreensão (esta exposição não tem a pretensão de ter validade científica, nem há a preocupação de usar os vários termos de forma técnica). Esta luz pode ter duas modalidades, que são dificilmente articuláveis. Numa, ela deriva da nossa abertura para a realidade e assim as coisas “dizem” o que são na medida das nossas capacidades e do nosso grau de abertura. Noutra variante, o clarão é interno e tentamos depois derramá-lo sobre a realidade, ou seja, ficamos deslumbrados por alguma teoria e tentamos encaixar os factos nela. Aparentemente, a escolha entre os dois casos é fácil de fazer, porque no primeiro caso estamos na senda da verdade e no segundo estamos na via da ilusão. Contudo, estas duas modalidades de entendimento não existem à disposição de forma pura e dependem em certa medida uma da outra. Basta ver que não podemos nos iludir com teorias desde que nascemos porque nem sequer possuímos uma linguagem que nos permita fazer isso no início. Por outro lado, apenas aprendemos com a realidade fenómenos de ordem imediata, ainda que complexos, e não mecanismos de ordem superior, como os relacionados com a história, com a política ou com o conjunto da sociedade. Ou seja, a nossa abertura para a realidade também é condicionada por instrumentos de criação humana, como a linguagem e teorias explicativas, mesmo que erradas, pois mesmo estas podem nos servir de alavanca para vermos algo que sem elas permaneceria oculto. Palavras e ideias devem tornar-se, no intelectual sério, como que órgãos de percepção, que nos permitem captar estruturas sociais, correntes históricas, estratégias políticas de longo alcance e assim por diante. Então, a compreensão precisa desesperadamente das palavras e da teoria, e ao mesmo tempo tem de transcende-las numa abertura para a realidade, e isto de certa forma emula o próprio ideal científico.
Existem dois riscos óbvios neste processo. Quem apenas queira ficar com a abertura para a realidade terá, no máximo, um conhecimento mudo e muito provavelmente irá, mais tarde ou mais cedo, adoptar alguma teoria pueril para encaixar as sua «sabedoria», iludido de ter atingido algum tipo de iluminação. Por outro lado, os adeptos da “teoria fechada” irão se tornar meros burocratas do intelecto ou, pior ainda, iludir-se de que a realidade está contida na sua teoria e talvez que até tenha sido criada por ela. Obviamente que ainda pode haver um terceiro tipo de risco, que é o da articulação totalmente errada entre as duas formas de conhecimento, como juntar práticas esotéricas de quinta categoria com teorias pseudo-científicas. Pessoalmente, todos podemos correr qualquer um dos riscos, mas o potencial de destruição social é maior no caso dos adeptos da “teoria fechada”, até por estarem frequentemente ligados ao prestígio da ciência.
Existe um critério prático para reconhecer se estamos em presença de alguém que está na ilusão da “teoria fechada” e que serve para percebermos se nós mesmos estamos metidos nesse labirinto. Se for o caso, então existe a compreensão rápida e frequentemente impressionante, onde tudo aparece enquadrado sem falhas. O sujeito que, quase em tempo real, dá uma explicação de um fenómeno complexo não compreendeu esse fenómeno mas apenas mecanizou um processo de adaptação de uma teoria a uns factos escolhidos à medida. A verdadeira compreensão é sempre lenta. Pode partir até de alguma teoria mas temos que fazer uma intensa dialéctica entre ela e a realidade dos factos até chegarmos a um entendimento em que as duas coisas cheguem a algum tipo de acordo, onde fiquem salientados os pontos de obscuridade e de ignorância. Quase 100% dos comentaristas de blogs e da comunicação social ignoram a necessidade de fazer isto e acabam por ser meros propagandistas voluntários ou involuntários.
Pode também acontecer que alguém mostre uma aparente compreensão rápida mas que tenha feito esta dialéctica. Neste caso, há um prolongado trabalho anterior – os propagandistas também são esforçados mas fazem um trabalho de outra ordem – que lhes permite reconhecer que uma aparente nova situação apenas repete algum padrão conhecido, ou então que aquilo que foi identificado como o surgimento de um fenómeno é apenas uma manifestação tardia de algo que passou despercebido às massas. Apenas conseguimos distinguir claramente estas pessoas dos meros propagandistas se já tivermos feito um esforço prolongado no mesmo sentido. Para o leigo é normal que o propagandista diga coisas com “mais sentido”, precisamente porque este lhe faz um apelo emocional usando ideias correntes nas quais o leigo já acredita sem perceber. O verdadeiro intelectual ilumina de outra forma, as suas explicações parecem fazer mais sentido em certa medida, mas também assustam porque exigem que o ouvinte saia do conforto das suas ideias feitas e reconheça que o seu horizonte de compreensão é limitado. Mas nem este critério é muito fácil de aplicar. A nossa ignorância em certas áreas pode ser tão grande que se depararmos com uma “teoria fechada” muito tacanha ainda assim podemos sentir aquilo como uma grande abertura, como um mar de possibilidades e perplexidades, ou seja, que estamos na senda do caminho árduo para a verdade, quando apenas demos o primeiro passo num caminho sem fim. Não há outro caminho para a compreensão a não ser o de estarmos preparados para, a qualquer momento, sermos atirados para o deserto.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sociedade de eunucos

Os imperadores da antiguidade serviam-se, com frequência, de uma guarda pessoal de eunucos. Não deriva isto de alguma perversão especial ou apenas da tentativa de assegurar que as mulheres da corte estivessem a salvo de investidas sexuais. O eunuco era dócil sem perder a sua força, mas mais importante que isso, ele não era apegado a uma família mas apenas ao seu mestre. Nas modernas sociedades a castração física é coisa considerada repugnante, contudo, as qualidades dos eunucos continuam a ser bastante apreciadas.
Com o surgimento dos meios de comunicação de massas foi possível criar figuras como o “duce”, o “führer”, “o pai dos povos”, que criavam um sucedâneo dos eunucos usando tanto o encantamento como a repressão. E havia ainda os eunucos de elite, as modernas guardas pretorianas dos grandes ditadores, compostas por aqueles que nasceram com uma compulsão irresistível para seguir o chefe e executar os seus desejos mais mórbidos.
A vitória das democracias sobre algumas ditaduras ditou que se considerassem aberrantes práticas como as do culto da personalidade ou a existência de guardas de elite fortemente ideológicas. A democracia admite apenas o cinzento, o morno, chefes sem carisma, mas é uma ilusão achar que a fome de poder desapareceu. Os poderosos já não sobem aos palanques e tentam encantar as massas pela sua palavra, antes escondem-se atrás de políticos amorfos e sem carisma. Então, o culto já não pode ser o da personalidade mas o do próprio sistema, dos cargos de soberania, do Estado que não é nação mas uma espécie de forma platónica. O próprio desprezo a que os políticos são votados serve este propósito, porque realça, por contraste, a perfeição do sistema onde cada um projecta os seus desejos. E os cidadãos da democracia aceitam isto porque já foram todos transformados em eunucos pelo individualismo liberal, pelo Estado social e por toda a engenharia da sociedade atomizada.
Mas os “democratas” não controlam o poder apenas mediante o controlo da populaça de eunucos – que não faz distinção de classe social –, tendo também as suas guardas pretorianas que assustam os pequenos eunucos, tornando assim ainda mais premente a necessidade destes de segurança e de protecção do sistema. Estranhamente, as modernas guardas pretorianas de eunucos parecem não ter ligação com o poder: fazem parte das claques de futebol, integram movimentos de ruptura, e são mesmo os jovens delinquentes sem causa. Ao fragmentarem a sociedade, mas ao mesmo tempo não tendo uma coesão e um projecto de poder concorrente, eles são os melhores protectores de um sistema que vive da fraqueza dos indivíduos.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O que querem os socialistas?

Se o post anterior está correcto, isso implica que capitalistas e socialistas têm forçosamente de cooperar em alguma parte do trajecto. Está amplamente comprovado o financiamento de movimentos socialistas por capitalistas, mas aquilo de que estou a tratar no momento diz respeito às motivações que, de parte a parte, levam a esse casamento. Naturalmente que os movimentos socialistas, e mesmo comunistas, não são apenas financiados directamente por capitalistas. O apoio financeiro também pode vir da militância de base, de algum tipo de subsidiação estatal interna, de países socialistas e comunistas amigos da causa, e até de Estados liberais que, por algum motivo, achem que lhes será proveitoso, naquela conjectura, fomentar algum tipo de socialismo num determinado ponto do planeta. Quem não percebe a relevância da questão do financiamento do socialismo é porque ainda não parou para pensar na quantidade astronómica de dinheiro necessária para pagar a intelectuais e artistas, para realizar congressos internacionais, para fazer constantes acções de propaganda e mesmo para preparar grupos armados e de “desobediência civil”. Em Portugal, ninguém ainda se preocupou em descobrir quem financia o Bloco de Esquerda, que sem ter a incansável militância comunista, apareceu em cena com uma estrondosa força mediática e gastando rios de dinheiros em “outdoors” por todo o país. Não sendo um partido destinado a ocupar posições de governação mas apenas a criar rupturas sociais, certamente que não é financiado por empresários expectantes fazer negócios com o Estado mas com outras pretensões.

Em certa medida, as ambições do socialista seguem o percurso inverso da evolução dos objectivos do capitalista, tal como a delineei anteriormente. O objectivo final do capitalista – quando já é meta-capitalista – aponta para algum tipo de transcendência, no mínimo para a criação ou manutenção de uma dinastia familiar que englobe a sua vida e vá muito além dela, mas em geral os objectivos são bem mais ambiciosos e apontam para algum tipo de influência sobre a totalidade da sociedade e dos seus destinos. O socialista parte precisamente de um objectivo transcendente, embora ele finja repudiar tudo o que não seja materialismo. Mas o que podemos dizer do varredor de rua que também pode ser um Aristóteles ou um Miguel Ângelo, que os marxistas acreditam ser uma inevitabilidade, da qual eles são agentes? Nunca religião alguma prometeu uma transfiguração tão grande da natureza humana a ser operada num mundo imanente. Isto é próprio na mentalidade revolucionária, que coloca a transcendência dentro do próprio devir histórico, o que se consubstancia na inversão do tempo. Esta inversão significa que o revolucionário, ao invés de considerar a história como um percurso de um passado mais ou menos conhecido para um futuro largamente incerto, considera que o fim da história já é conhecido por ele e esse fim dá um sentido retroactivo ao acontecer histórico, inclusive fornecendo uma justificação plena das suas acções transformadoras, quer estas sejam suaves e graduais, quer sejam brutais e sangrentas.

Depois de desmoralizado o socialismo utópico – que descrevia a sociedade ideal mas não investigou a fundo meios de transformação social – o socialismo “científico” impôs-se, seguindo um caminho inverso baseado nas técnicas de transformação social, permanecendo os fins últimos como uma inspiração tanto vaga como poderosa. Então, num segundo nível, surge um objectivo mais concreto e que diz a cada socialista o que deve ele fazer para modificar a sociedade em que se encontra, por forma a acelerar o movimento rumo à sociedade perfeita. Contudo, como o objectivo é tido como absolutamente inevitável, deixa de ter sentido averiguar se está ocorrendo alguma aproximação ou afastamento em relação a ele. A única coisa relevante é se existe uma transformação social no sentido do afastamento das suas bases históricas. Daí vem a ideia de movimento, de algo que nunca para, de um Avante! Isto quer dizer que, se uma acção socialista transformadora perde o seu vigor, ela deve ser eliminada por outra corrente socialista que tome o seu lugar. Nesta fase, então, o objectivo passa por provocar tanta instabilidade social quanto possível, mesmo que seja necessário sacrificar antigos companheiros de luta, usando todos os meios à disposição. Se isto conduzir a matanças indiscriminadas, à miséria, a campos de concentração, tanto melhor, pois apenas mostra o poder da própria causa, que assim se mostra infinitamente acima da presente condição humana.

Contudo, este abismo socialista, apesar de maravilhar tantos, pode levantar dois tipos de objecção. Desde logo, a história mostra que as gloriosas revoluções sangrentas não se limitam a eliminar os “elementos alienados” e rapidamente enviam para a fornalha os próprios socialistas mais convictos, só sobrevivendo os mais hábeis e brutais. Sim, o comunista pode ter frequentes orgasmos imaginando que está empunhando a metralhadora e eliminando a «reacção», mas ele não ignora que, caso a revolução sangrenta avançasse, muito provavelmente chegaria o momento dele ter que se ajoelhar para receber na nuca o projéctil disparado por algum colega em missão divina. Por outro lado, também é de questionar se a revolução violenta, que Lenine inaugurou, seguia os passos que Marx e Engels delinearam, de um objectivo a ser alcançado de forma progressiva apenas ao fim de muitas gerações. Então, autores como Georg Luckás, António Gramsci, Max Horkheimer ou Herbert Marcuse começaram a estudar formas de implementar a revolução de forma menos brutal mas mais eficaz. Afastavam-se assim dos ditos marxistas estritos, mas apenas cumpriam o seu papel revolucionário ao criar correntes transformadoras que pudessem dar continuidade ao movimento. Juntando estes dois pontos, obtemos um terceiro objectivo do socialista: ele anseia viver numa sociedade capitalista, conservadora até, já que é essa a sociedade que lhe dá toda a protecção, segurança, meios de expressão, de movimentação e associação, bem como lhe oferece o material (instituições, religiões, rituais, sacramentos, linguagem, etc.) que ele irá subvertendo aos poucos, como a criança pérfida que se compraz em ir arrancando cada um dos membros do gafanhoto que capturou.

Enquanto que o capitalista, de certa forma, só pode se comprometer com um novo objectivo quando renega os anteriores, o socialista nunca precisa de abdicar do seu primeiro objectivo transcendente, ou seja, ele pode abraçar ao mesmo tempo a utopia a realizar nos fins dos tempos, a revolução sangrenta e o conforto burguês, porque ele começou logo por aceitar um objectivo que também é um princípio de ordem, por mais aberrante que seja. Isto quer dizer que o socialista terá sempre uma vantagem estratégica em relação ao capitalista, já que, ao contrário deste, ele nunca abdica de nada e não se irá desviar do caminho, porque também ele sabe que não há caminhos, há que caminhar.

Posto isto, não é muito difícil perceber como podem cooperar socialistas e capitalistas. Os meta-capitalistas são os herdeiros dos socialistas fabianos do século XIX, que na altura não viam necessidade de uma luta de classes ou de uma revolução violenta. Como a “nova” estratégia revolucionária também se suavizou, os dois movimentos encontram-se naturalmente, embora também não deixem de ter um certo grau de oposição. Cada um dos movimentos não é propriamente dirigido por uma elite compacta e bem conhecedora da situação, mas é composta por indivíduos imbuídos de uma certa mentalidade e com uma visão limitada dos acontecimentos. Por exemplo, um meta-capitalista irá financiar uma série de grupos socialistas não porque esteja pensar no movimento socialista como um todo mas porque aqueles grupos que ele suporta desenvolvem acções que favorecem, pelo menos aparentemente, a sua agenda. Já os socialistas recebem o financiamento de bom grado, pois mais que ninguém eles valorizam os meios materiais, e vêem aqui a realização da profecia de Lenine, que dizia que os capitalistas teciam a corda que os iria enforcar. Note-se que Lenine é uma figura complexa, que não só foi um dos artífices da revolução violenta como deu vários elementos para a implementação da “revolução lenta”, como “dar um passo atrás para dar dois à frentes, “a estratégia das tesouras”, “o capitalismo como electricidade” ou o “capitalismo de Estado”.

Podemos dizer que a ideia genérica dos meta-capitalistas em financiar os socialistas passa pela criação de uma tal instabilidade – social, moral, anímica, psicológica – para que depois apareça uma elite, composta por banqueiros, farmacêuticas, pelas grandes famílias, por intelectuais comprometidos, engendrando uma solução global para os “problemas no mundo”. Naturalmente que a ideia dos socialistas é serem eles “a solução” e depois irão morder a mão que os alimentou. Se pensarmos que os socialistas são predadores, que vivem naturalmente na instabilidade e que, pelo contrário, os capitalistas dependem do domínio dos instrumentos financeiros e da própria coesão social para obterem a sua segurança e poder, não é difícil imaginar que quando a instabilidade chegar a um determinado patamar sejam os capitalistas os primeiros a ser executados, e com toda a justiça. Obviamente que o quadro real é bem mais complexo que isto. Os artífices do Califado universal assim como russos e chineses não só tentarão aproveitar esta instabilidade como têm contribuído para ela. Não falo propriamente no bloco eurasiano, que é uma realidade presente, porque no futuro nada garante que a Rússia e a China não sigam caminhos divergentes.